quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Acendalhas

Em dias como o de hoje em que me permito regressar bem mais cedo do que é habitual e ainda debaixo da luz do dia, gosto de encontrar a casa vazia, fria, triste, escura. Acender a lareira lentamente e ficar ali a ouvir os primeiros estalidos da lenha a queimar. Depois, quando o lume pega completamente, os pedaços de lenha começam a brilhar e uma chama tremulante, regular, começa a dançar por toda a sala, fico por ali uns momentos de pé, como que a contemplar as chamas bruxuleando na vulnerabilidade da tarde caída. Até que me sento na poltrona de orelhas, alumiado apenas pela incandescência da lenha, acendo um Arturo Fuentes, dou umas baforadas generosas e deixo-me invadir pelas ondas sonoras do sistema nervoso que tentam impelir-me para tempos idos.
Não me permito olhar para trás. Se bem que as atribulações do mundo nos levem a superarmo-nos em lugares onde a vida podia ter dependido de um mero olhar. Os mundos de ontem, incessantemente revisitados, magnificados, auto-embelezam-se para se converterem em sonhos que nunca existiram. Não revitalizo firmamentos de azul celeste. Não recordo amabilidades, sorrisos de boas-vindas, langores outonais. Não recordo beatitudes, tempos de espírito sereno, de calma e de saciedade. Foi tudo difícil, arrancado a ferros. E saber que, noutras plataformas com vidas em cima, o sofrimento quase sempre leva a melhor sobre a felicidade, como a mágoa, como a incerteza das coisas, dos seres, como a falta de amor, como os telefones mudos, como a chuva, as frieiras, como o medo, as tormentas da ausência, a insónia, os suores nocturnos, despertares ancilosados, a ansiedade de uma partida, a ansiedade de um regresso, projecta-me o olhar num único sentido. Sim foi tudo difícil, o mundo de ontem não suscita arrependimento, nem nostalgia, cada instante foi vivido à saída de um desafio. Apenas ficaram uns abraços por dar.
Tantos abraços para dar. Abraços.

32 comentários:

  1. Tantas vezes é a fome quem mais sacia.

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    1. Sim, claro. Mas o problema da fome é o metabolismo acelerado.

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    2. ...um comentário tão poético e vem-me de metabolismo... enfim, dou eu letra a quem é só dentes. Entristeço.

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    3. Tem razão, LK. Ficou um abraço por dar.

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  2. Haja abraços!

    Um grande abraço, Impontual :)

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    1. Haja abraços, Maria. Sempre que seja preciso expressar o que as palavras deixam a desejar.

      Abraço.

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  3. Haja braços com vontade de abraçar e gente que deseje ser abraçado.

    Como se diz na minha terra, venha daí um Xi coração :-))

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    1. Plateia solitária? Muito propositado tema, Larissa.

      Abraço.

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  5. momentos de abraços, um conforto sem igual.
    Festas Felizes, Impontual,
    Mia

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  6. Impontual, sei que todos os abraços que der hoje, agora, no presente, não irão colmatar a falta dos que ficaram por dar, mas este seu divagar tocou-me, fez-me sentir uma enorme vontade de o abraçar e ser abraçada por si...venha daí esse abraço. Venham de lá esses ombros espadaúdos e braços fortes, Impontual! :)

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  7. Se ontem foi todo difícil, fazemos bem em deixá-lo lá. E se foi superado melhor ainda.
    Um abraço, Impontual

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    1. O ontem poderá ser ontem se não tiver sido difícil?

      Aceita um cartão de Natal, Anouk?
      https://www.youtube.com/watch?v=mxVo5mjK4eg&list=RDmxVo5mjK4eg

      E um abraço.

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    2. Claro que aceito. Mas não consigo abrir o link.

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  8. Mas porque é que de vez em quando o Sr. Impontual se sai assim com este tipo de reflexões de grande densidade espiritual deixando os leitores todos melados, introspectivos e cheios de pena?
    Eu por mim fico com a sensação de que está a divagar na reflexão, embora profunda, mas generalizada. E nisso não há quem o bata.:)
    Olhe, boas festas.

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    1. Tem razão Nut. Não há nada pior que ter pena.

      Aceita um abraço?

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    2. Se aceito umabraço?
      Só se for com os dois braços.

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  9. Belíssimo texto!!
    Deixo os meus votos de feliz Natal,mas ainda volto.


    Beijinhos. Boa noite

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  10. O pior de tudo são as frieiras do coração.
    Um abraço Impontual

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    1. ... que, ainda assim, não pára de bater.

      Abraço

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