quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Motel

Chegara a um ponto em que percebeu com clareza que se enganara em todos os infinitos conjugáveis. Por isso não lhe restava outro consolo senão aproveitar a dádiva. Seria uma ladra. Iria roubar todos os beijos, todos os cheiros, todos os sabores, todos os segundos, a rolha do champagne e até aquelas notas de piano lentas e cavernosas que se soltavam  pelos altifalantes incrustados na cabeceira da cama queen size.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Donne


Pois.
Sou três vezes doido, bem sei,
Por chamar-te até mim, por prometer-te o céu, e por cantá-lo
nesta prosa plangente.

sábado, 16 de setembro de 2017

Vintage

Voz acetinada pela fadiga, cigarro entalado entre as unhas já pintadas da cor do Outono, mãos finas e compridas, uma franja indefinida estendendo-se em leque sobre a testa, a alça do vestido preto descaída sobre o ombro arredondado. Incrivelmente perturbadora. Sem dúvida uma mulher muito sensual, impregnada de cansaço, lindamente marcada pelas rugas e confortada por alguns quilos a mais. Libertava uma força erótica tão perceptível, tão forte quanto o odor da casta de colheita tardia no seu perfeito estado de maturação. Um vinho das cotas mais altas. Tinto. Encorpado. Mistura de geleia de frutas negras e especiarias. Taninos doces. Um sorriso fleumático e uma certa filosofia.

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Fileira

Há dias em que se acorda e parece que estivemos em centenas de lugares todos ao mesmo tempo: estações de caminho-de-ferro, aldeias longínquas, beira-rios, mares salgados. Todos esses sítios tinham nomes, mas não nos lembramos de um único desses nomes. Às vezes parece-nos um vasto prado que se confunde com o céu, outras vezes uma floresta sombria que se prolonga indefinidamente dentro da escuridão, e outras ainda uma fila comprida de pessoas, da qual algumas caem de vez em quando e são pisadas pelos outros todos. 

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Núpcias

Vaguear pelos meses em doces nostalgias, recusar durante longo tempo a ideia do amor e embriagar-se de amargura. Depois, sem se curar da recordação, descobrir-se diferente, mais vivo, longe das expectativas, interessado na pessoa menos cheia de certezas que sentia fremir dentro de si. Horas maravilhosas de solidão, uma espécie de lua-de-mel consigo mesmo. Uma verdadeira alegria interior a surpreender aquele desgosto que se julgava infinito, naquele momento em que as cores e as emoções ainda não foram devoradas pelo calor. Sentir o desejo de agradar a si mesmo, prelúdio ao prazer. Mergulhar em si próprio, rodeado por uma música interior, construir um abrigo e às vezes elevar-se para observar de longe. Sentir mesmo gosto em frequentar esse universo alargado de pessoa só, sem se atolar em delírios de desgaste lento.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Emulação

Enquanto a geração cabeça baixa tecla, posa, fotografa e volta a teclar fazendo chegar ao Mundo os seus mundos, faço um considerável recuo mental e dou comigo da idade deles, num tempo em que fervilhava em mim a mesma vitalidade que a borboleta deve sentir ao sair da crisálida. Em que o que queria era experimentar a embriaguez permanente que me permitia todas as audácias. Falar com raparigas, caminhar enlaçando-as pelos ombros, beija-las, acariciar os seus incríveis seios, introduzir a mão por baixo das suas saias perturbadoras e, quando a sorte me sorria, atingir realmente o fim, sentir a demasiado breve electrocussão que fazia de mim um homem e me autorizava, chegado o momento, a regressar a casa de cabeça erguida.

Por ora deixo-me com um pé no rio, um livro, dois de conversa para dentro, uma cerveja, a música no ouvido. 

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Cartilha Oligárquica

Demos graças a Deus por vivermos no litoral, termos nascido e vivermos no melhor destino europeu do ano com a piscina mais bonita da Europa e com a zona ribeirinha mais visitada... ou por actualmente morarmos no sítio onde a Madonna, a Bellucci e o Fassbender se andam a passear e onde os reformados mais ricos do mundo se querem fixar.
O que seria de nós se vivêssemos numa aldeia ou vila do interior, onde além de ficarmos sem tribunais, escolas, bancos, correios ou hospitais ainda corríamos o risco de morrermos assados, perdermos os nossos bens e entes queridos devido à incúria dos que vão governando e desgovernando o país, que ainda teriam a lata de dizer-nos também ser nosso, e que tivéssemos confiança nas instituições sociais?

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Temos então dois grupos

O primeiro grupo, que é extraordinário, é composto por uma espécie de iluminados que defende que a desigualdade de género está na paleta de cores e que por isso urge erradicar o rosa e o azul.
Depois temos um segundo grupo, que não é tão extraordinário nem tão original, que defende que na paleta de cores não há limites e que o vermelho não é uma cor una e por isso permite descrever todo o espectro de cores que vai desde o rosa chã ao azul celeste, mas que nós portugueses não estamos culturalmente preparados para isso. 
Einstein na sua rara genialidade dizia que "há duas coisas sem limite, o universo e a estupidez humana...". Aqui falámos especificamente de estupidez humana.

Naturalmente, há quem (muitos) por especial atributo possa pertencer aos dois grupos em simultâneo. Quem diz em simultâneo diz em menos de um fósforo.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Pirose

O ressentimento é uma sopa espessa que se pousa nos lábios, passa pela boca e pelo esófago e vai ancorar-se no estômago. E por ali fica, em ebulição constante.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Ponta-de-lança

Não há nada tão excitante como experimentar aquela sensação de ter alguém pela frente sem qualquer capital de ideias mas com os bolsos recheados de euros e, sem hesitar um instante, escrever na toalha que se encontra sobre a mesa uma cifra com seis zeros, provocatória - isto é quanto vale. Cobrir o numero com um risco e acrescentar: mas o projecto é seu. E depois com um impulso repentino, entrelaçar os dedos das mãos, pousar o queixo sobre elas e ficar ali a ver a seta já lançada a voar em direcção ao alvo com a certeza de que lhe imprimimos uma trajectória infalível, mas que ainda assim lá mais para o final do mês o nosso soldo terá uma variável de crescimento incompatível e os vencedores serão outros, os do costume, os palmadinhas nas costas.
É por isso que gosto muito de futebol, o único sector de actividade onde o operário ganha mais que o administrador.

domingo, 27 de agosto de 2017

sábado, 26 de agosto de 2017

Palomar

O Senhor Impontual desperta às oito horas da manhã de um Sábado com o intuito de regar o relvado, sequioso, vitima de seca prolongada. Estende a mangueira, abre a torneira da água e, no momento exacto em que esta jorra a primeira torrente, dos céus tombam lentos e sintonizados uns pingos grossos que por momentos se intensificam, desaparecendo. 
O Senhor Impontual, com o seu olhar invertido, contempla agora as nuvens errantes que se escondem atrás da colina. Mantém-se vigilante, livre de toda e qualquer certeza.

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Graça Fonseca

A identidade tal como a mentalidade não necessitam de palavras. A identidade, porque o seu elemento é a dissimulação e a sombra. A mentalidade porque não tem de alardear as suas acções. De resto, tudo certo.

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Bóreas

Encontrávamo-nos no paredão junto à praia e não seguíamos para o areal, seguíamos para o prado para uma festa muito nossa. O vento de Agosto já baloiçava Setembro. Instalávamo-nos sob a mesma carvalheira, desembrulhávamos os nossos lanches enquanto o vento e a sua cauda de espaços entrava nas nossas bocas e assobiava nos nossos cabelos. Espalhávamos pasta de fígado em grandes pães e bebíamos pelo mesmo copo uma laranjada que, de tão fria, gelava os dentes. Fumávamos um Ritz subtraído ao avô, olhávamos os frémitos juvenis da erva verdejante, os frémitos de velhice do colmo amontoado. O vento, carrossel de gaivotas, volteava por cima do nosso fascínio e do nosso lanche. 
Parece que foi ontem!

terça-feira, 22 de agosto de 2017

E eu ali tão perto


Puxou-me pelo braço para o recato do sofá da sala. Diminuiu a intensidade da luz e do telemóvel para o televisor deu inicio à projecção de alguns vídeos. Queria falar-me do seu primeiro festival de música. Senti-lhe a alma dilatar-se. Começa por mencionar o quão pequena se sentiu no meio de tanta gente. Gente boa, referiu. Depois, descreve-me detalhadamente um tempo que lhe agradou particularmente - o lazer e diversão na zona fluvial enquanto aguardava pela hora dos concertos, a pacatez da paisagem, a inquietude da espera que se afrouxava a cada mergulho nas águas escuras do rio. Recorda a emoção desse momento, reforça o estado de alma, descreve-me a qualidade da música e do ambiente rural circundante. 
-- Ouve a limpidez desta interpretação, dizia-me a cada música que atirava para o televisor. E eu a ouvir Sinatra nas introduções e Nina Simone nas notas mais altas.
-- Repara na interacção com o público e na fidelidade deste a cada nota, a cada verso. Um público convertido, salientou. E eu a ouvir Etta James em At last.
-- Repara na fragilidade e na sensibilidade desta figura imensa, dizia-me com embargo na voz. E eu a ouvir Billie Holiday a interpretar majestosamente o Summertime.
-- Para o ano se calhar vou voltar, preconizou. E eu ali tão perto. 

sábado, 19 de agosto de 2017

Dia Mundial da Fotografia

Ela aceitava a homenagem sem se comprazer. Eu procurava sem isenção o sulco entre os seus seios. E nem o meu olhar hipócrita a fez fechar as bandas do roupão. O portal entre os seus olhos e os meus abriu-se: tínhamos encontrado a liberdade de olhar e querer.

__Diz que temos tempo. Di-lo.

A noite resfriava os nossos lábios juntos. Abraçámo-nos mas não nos pusemos ao abrigo da grande maré das horas, mas a noite no pátio do varandim, a noite na cidade deserta desabaram sobre nós.

__Tenho medo do tempo que passa, disse.

Ouvi um sussurro de uma massa de luto. Eram os seus cabelos negros que ela atirava para trás. Tirei partido do intenso desejo de uma rainha descomposta.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Dança da chuva

Chego à sala de trabalho, ligo o computador, entro na caixa de correio e encontro um email atípico, recosto-me na cadeira e abro-o. As letras são grandes. Arial 16! As frases inseguras. Imprimo-o. Arrasto-me para a claridade do dia. A minha mente inicia um trabalho lento dentro da minha carapaça preguiçosa. O sol, apesar da minha sofreguidão, já não me tenta. O reflexo do céu já não consegue penetrar a minha pele tisnada, vozes doutorais e passos de calibre incerto ecoam pelos corredores, mas não têm a ressonância habitual.
Ó estações vindouras, dai-me os vossos farrapos. Fazei de mim um vagabundo de faces resfriadas pelo vento e de cabelos colados pela chuva. É o que vos peço. Depressa.

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Canteiro


O olhar de Impontual, depois de ausência prolongada, pousou na paisagem de parede: nas solanum melongena e nas suas já abaçanadas beringelas, um infindo horizonte isento de terrores, sem problemas humanos, sem nenhum incidente causado pela natureza, sem slogans noticiosos, sem estandartes doutrinais, a confirmar que a Primavera escapou e que o Outono há-de vir quando ele muito bem entender.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Preia-mar


Estranho sentimento este de fim de tarde que por vezes nos invade; de estarmos simultaneamente vazios e cheios a transbordar, tão carentes quanto repletos.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Outra vez Carver



Lentamente, elas vêm vindo.
O céu começa a clarear,
embora a lua ainda paire sobre a água.

Tanta beleza que por um instante
a morte e a ambição, mesmo o amor,
não se intrometem nisso.

Felicidade. Ela vem
inesperadamente. E vai além, na verdade,
de qualquer discurso sonolento.


segunda-feira, 24 de julho de 2017

Carver

Vem e conta-me um conto curto, vem e recita-me poesia, vem e diz-me que, como eu, tens medo. Medo de ter medo.


Medo de dormir à noite.
Medo de não dormir à noite.
Medo que o passado desperte.
Medo que o presente alce voo.
Medo de não amar e medo de não amar o suficiente.
Medo que esse dia termine com uma nota infeliz.

Ou então, ajuda-me a contar as ondas. Uma a uma.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Bach: Partitas para Violoncelo Solo

A aurora estremeceu nos meus sonhos. Aflorei e voei sobre os seus ombros com as mãos fulvas de Verão. Com grandes dardos lancei a claridade no ar, abanei as caricias, criei desenhos com a brisa marinha, embrulhei de zéfiros os nosso peitos, possuía rumores de lume na palma das mãos. Como era fácil entrar. A carne palpitava, o odor cristalizava. O fermento, as bolhas, o pão. O vaivém não era servidão mas beatitude. Perdi-me no seu peito como ela se perdia no meu. Como sonhou a minha boca aplicada! Que casamento de movimentos! Estávamos reluzentes de luz. A vaga veio como um explorador, embebedou os nossos pés. Arrependeu-se. Houve umas nuvens escuras que se esticaram, uma escuridão que se propagou nos nossos calcanhares. Esse desabar de doçura acabou. Eu tinha os joelhos em cinzas. 

terça-feira, 18 de julho de 2017

Inquérito de Verão

O céu está encoberto de um cinza uniforme e a luz, difusa, faz os contornos das coisas parecerem em ebulição. Não sei se meta o cão de pêlo pardo no carro, ponha o Intermezzo de Mascagni nas colunas de alta fidelidade e vá dar uma volta de mar ao fundo, ou se fique aqui embrenhado nos Almada Negreiros?

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Toda a gente sabe que isto dos blogs é coisa de Inverno...

Um fim de tarde de um calor absolutamente inconcebível, as ondas verdes e espumosas num vai e vem enrolado, repetido, certeiro e demolidor, golpeiam as areias implacavelmente. Constança longe de tudo, incluindo de si mesma, escreve sobre o areal fino e dourado uma e outra vez uma só palavra, um mesmo nome, que as ondas se encarregam de apagar, ou se quisermos de limpar, repetidamente. Será uma questão de tempo para se saber quem ganhará esta batalha interminável, pensava. A luta não é desigual: as ondas são eternas, as palavras também, retorquía para dentro.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Que mania esta!


A de procurar sempre uma desculpa para adiar o momento de saber que o amor não é um pecado nem um milagre, mas um facto tão simples que explica, entre outros prodígios, os obscuros esplendores, os três tristes tigres, as florestas em chamas, os olhares perdidos, as cidades deixadas para trás, as árvores nos jardins, os mares e as secretas travessias, o movimento da terra, os paraísos, a transparência do ar, as paixões perdidas em tempo de cóleras, as flores ocultas da poesia e a história universal da infâmia no reino maravilhoso deste nosso mundo.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Previsão meteorológica para quatro manhãs. Eis a segunda.

Pra que me meteria eu a ver por onde ia a vida
que dei por onde ia
e não em meu favor!

Eu perdi a vez de ser simples,
perdi a vez feliz de ignorar
perdi a sábia ignorância,
perdi a graça de não saber.
Deixei passar a vez de ir na corrente
e de ser como toda a gente
às carambolas da sorte.


Eu perdi a vez de ser analfabeto,
esse segredo para não ser doutor
e para não saber também
o que as letras sabem
do mundo e de mim.

Eu perdi a vez de ser da multidão
(esta comodidade por mim perdida);
já deixei de fazer parte,
inteiro o destino me fez
inteiro a vida me tornou.

Os meus gestos metade são meus
e metade ainda da multidão.

Eu incomodo-me a mim-próprio,
é pequeno o meu corpo para mim!
Sou pior do que eu-próprio
ou eu-próprio não caibo em mim?

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Compósito.

Era sem duvida alguma uma mulher muito elegante, mas o seu rosto ao sorrir parecia ter sido construído a partir de uma série de pessoas diferentes. 

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Bernardes Carvalhosa

Esta manhã bem cedo, depois de um abraço bem apertado e em menos de um café tomado ao balcão, Bernardes Carvalhosa dizia-me com alguma mágoa no sorriso sempre aceso que lhe é característico, que poucas vezes terá gostado de mulheres que não tivessem gostado de si. Que nem sabia se isso aconteceu alguma vez, porque geralmente as mulheres, quase todas, gostavam dele. Crê até que tenham gostado de si muitas vezes mais do que as que deviam, às vezes só as que não deviam. Mas que o que sempre lhe interessou não era a impressão que causava nas outras pessoas, mas sim a impressão que elas causavam em si. Que a sua vivência não é, nem nunca foi, apesar de tudo, uma vivência libertina, é uma vivência de sentidos. Mas que o seu problema - talqualmente o meu, diz Bernardes Carvalhosa - é quando se abrem portas entre as nossas e as suas bocas. 

Ainda agora, já para lá do meio-dia, embrenhado cá nos meus aborrecimentos profissionais, continuo a tentar recordar-me se aquele circuito Amesterdão-Berlim-Praga foi em 93 ou 95. Mas creio que foi em 93.

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Chegado a este grau de amadurecimento...

 

...julguei bem já estar em condições de, de uma vez por todas, decidir qual destas canções é a da minha vida. Mas não. Ainda estou verde.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

As Quatro Estações para violino e orquestra

Esgueirou-se para dentro da cama. Tinha tido um arrepio. Ia ter calor. Encostou a cabeça ao ombro. Estendi-lhe o rosto. A mão banhou-me o peito do lado do coração. Recitava sonatas de Outono. Os dedos voltearam pela carne entusmecida deixando uma linha de fogo. De onde vinha aquela onda de calor? Desceu. Despiu o meu braço, parou junto da veia, à volta do sangradouro, desceu até ao pulso, até à ponta das unhas, tornou a vestir o meu braço com uma comprida luva aveludada. A mão passeava por entre o balbuciar dos montes brancos, por entre os últimos nevoeiros, por entre a goma dos primeiros rebentos. A Primavera que tinha pipilado de impaciência na minha pele explodia em linhas, em curvas, em arredondados. Beijava tudo o que tinha acariciado e depois, com a mão suave, despenteava e sacudia com a pluma da perversidade. O polvo das minhas entranhas estremecia. Eu bebia com ela, amamentava-me das trevas sempre que a sua boca se afastava. Os dedos regressavam, circundavam, sopesavam o calor do peito, os dedos acabavam no meio do ventre como destroços hipócritas. A sua face hibernou no côncavo da virilha, avistei os seus cabelos espalhados, avistei o meu ventre chovendo estrelas. Como a caricia é magistral! Os meus olhos fechados escutavam a língua que aflorava a pérola. Avançava, recuava, sufocava, zangava o polvo nas entranhas, perfurava a nuvem dissimulada, parava, voltava a partir, esperava junto das vísceras.

Voei, agarrei no bico os flocos de pura lã presos nos espinhos da sebe. Os meus beijos escorregavam uns por cima dos outros. Lancei-me nos escombros da ternura. As mãos tomaram o lugar dos lábios fatigados. Aprendi o aveludado da sua pele, o resplendor da sua carne, o infinito das suas formas. Subi. O céu mendigava. A mão pousou na minha cabeça: um sol tímido de Verão branqueou os meus cabelos. Alisei os seus.

terça-feira, 27 de junho de 2017

Questiúncula

Como é que se explica a alguém (muitos), a grande diferença que existe entre ética de convicção e ética de responsabilidade: sabendo-se que a primeira nem sempre  é defeito?

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Grinalda

No adro o crepúsculo caía como o véu lhe caía sobre o rosto. Ela avançava, sorridente, amachucada debaixo das dobras do seu vestido de seda selvagem. Aquilo era a minha grinalda, aquilo era o rasgão no véu. Atrás, eu definhava, era fatal, a enorme cauda aumentava as estradas dos meus campos favoritos, o tempo agarrado ao relógio da torre da igreja fazia-se rogado. A brisa imprevisível entrou, acariciou as minhas faces, seduziu a minha memória. Estava consumado.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Poeta negro

Qualquer pessoa tem direito a descer, de forma vertiginosa e assustadora, ao patamar mais profundo da vida e por lá ficar, de olhos bem abertos num exame escuro, tempo suficiente para perceber o que vê, o que toca: o horror, a angustia e a permanente sensação primordial do medo de ser humano, de estar vivo, de ter que viver e dar vida, de ter de morrer. E depois voltar para cima e olhar o fundo do poço como quem olha as estrelas que pululam a céu aberto na noite de hoje.

Análise morfológica

Não há muito mais a acrescentar. Um verbo (fazer), dois pares de substantivos (floresta, incêndios, cidadãos, políticos) e dois advérbios, um de tempo (agora) e outro de negação (nunca).

terça-feira, 20 de junho de 2017

Psycho killer (epílogo)

(...)
Duarte estava agora a aguentar toda aquela cena, completamente virado para dentro, da mesma maneira que aguentava tudo. As palavras "ainda há pouco pedias a Deus por sinais" abriram caminho pela sua mente como grotescas enguias nadando em águas pesadas cheias de algas negras ondulantes, rodopiando e redemoinhando à volta umas das outras. Agarrou com firmeza o último copo, formando com ele uma dupla compacta: solitários, sofredores em silêncio, devoradores de vidas inconsequentes. Era difícil abandonar-se, render-se. No fim do dia tinha sempre vontade de dormir sozinho. Despiu-se e encheu a banheira. Ficou de molho durante imenso tempo, folheando umas revistas que nem teve o cuidado de não molhar. Bebericou as últimas gotas de bourbon que repousavam no fundo do copo. Na boca ficou-lhe um travo a chuva. Quando sentiu que a água quente tinha cumprido o seu papel, aliviando-lhe a tensão das pernas e concentrando-a no sexo, masturbou-se, arqueando o corpo no momento crucial para romper a água e ejacular para o ar. Para espanto seu, uma gota de esperma bateu na lâmpada pendurada no tecto, com um som crepitante, projectando uma sombra trémula e fugidia.

- "Deus queira que Deus não exista, Deus queira que Deus não exista", vociferou de olhos semi-cerrados



A convite/desafio do meu caro Miguel Bondurant, e não sei se agradeça ou peça desculpa, mas a quem deixo um forte abraço. 

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Trovoada seca

Funda, silenciosa, extensa e dinâmica, a tristeza umas vezes é presente outras já é passado. Hoje é cinza; ar turvo e poderoso, penetrado por densas partículas de fumo, estilhaços imaginários de fogo que furam a pele. Presente habitado por sombras, buraco que se afana no vazio. Hóspede indesejado que fomenta a impotência. Pesado tremor de incompletude, forte pontada no âmago. A memória não a conhece, mas recalca-a, depois tenta apaga-la. É nessa viagem, a demanda dos que sabem o que é a tristeza, que hesito desesperadamente em embarcar. Porém, hoje preciso ficar triste. Deixo-me na tristeza. Amanhã, vou ver se não.

domingo, 18 de junho de 2017

Modus Vivendi

Agora é hora de ajudar, não de arranjar culpados, a força da natureza é imensa e absolutamente destruidora. Depois, se quisermos encontrar responsáveis para tamanha tragédia, que ainda não acabou, teremos de ir muito fundo, mas muito fundo mesmo. Quiçá alterar todo um modelo de vida.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Estarolas

Toda a gente sabe que as pessoas dos blogs não podem ser amigos uns dos outros, porque as pessoas dos blogs raciocinam friamente, inteligentemente, logicamente. Não podem ser amigos uns dos outros, porque as pessoas dos blogs são irrazoáveis e ilógicas. Consequentemente, para serem amigos uns dos outros, deveriam ir ao encontro do terreno de uns e outros -  o terreno do ilogismo. E isso não é para todos. E não sendo para todos, logo não emparelham, logo não podem ser amigos todos uns dos outros. Mas, logicamente, podem divertir-se uns com os outros.

terça-feira, 13 de junho de 2017

Da moleza da tarde

... e daquele encontro entre os corpos elevar-se-iam os odores frutados da vida. Salpicos de suco lubrificariam todos os (últimos) orifícios. Com os dentes morderia cada vinco da sua pele de carne crua. Enterrar-me-ia até ao fundo, escavando a sepultura que haveria de me conduzir às portas da perdição. E uma vez percorrido todo o caminho, afundar-me-ia no abismo untuoso onde tantos outros, antes, quiseram perecer. E no fim, bastaria que se apagasse um ou outro fio de memória.

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Pungente, doloroso e elegantemente aterrador. Assim foi Pessoa. Até no feminino.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Primavera Sound

Inclinou-se sobre aqueles dedos tépidos subindo até ao pulso com uma caricia imprudente que lhe despertou nos olhos uma surpresa, quase uma réstia de alarme.
-- Nunca imaginei que se pudesse seduzir uma mulher só a tocar-lhe na mão, disse-lhe umas horas mais tarde, já nos braços dele, enquanto o som da tarde quente de Primavera entrava obliquo naqueles aposentos soturnos.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Recalcitrância

Antes de florescer, o tempo é uma pequena semente. Um vulto. Principio de fruto. Um dia, sobe a seiva mesquinha, rompe o galho, surgem os estames, os pistilos soldam-se, abre-se a flor. Em menos de um fósforo desvanece-se a formosura. O tempo instala-se de novo. Cai a flor. A maçã anuncia-se amarela. Não é a mão, não é o vento quem a derruba. É o voo de um insecto na névoa, o sussurro da chuva sobre as folhas, o crepitar da terra que alimenta as raízes.

E agora vou ali ouvir com muita atenção o "life is long" e já volto. Porque - como diz o poeta -  não gastaremos o tempo ele nos gastará.

Encardido

Voltei aos jornais em papel. Compro-os, levo-os para casa, leio-os quando me apetecer. As noticias impressas chegam-me assim sem quaisquer preocupações de pontualidade, muitas vezes já apagadas, de modo que o papel amarelece ao mesmo tempo que os acontecimentos.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Pegada ecológica

Oiço noticias, leio especialistas e fico paralisado. Não creio que seja nostalgia, talvez seja raiva por aquilo que vamos perdendo. A beleza da terra é-nos quase indiferente, como o dinheiro a quem nasce rico, e no entanto faz parte do oxigénio que nos mantém vivos. Passa num abrir e fechar de olhos, o espaço de uma vida, mas a beleza é frágil, morre mais depressa. Para já fica assim. Ainda se respira. Quem vier a seguir que ponha a máscara. Ou que feche a porta. Está visto.

Tríptico



sábado, 3 de junho de 2017

Da problemática do copo meio cheio ou meio vazio


Quando alguém se abeira de nós e nos diz que só quer compartilhar connosco as coisas simples da vida. A que se referirá?

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Por causa daquilo dos pandas bébé



O que eu gostava mesmo era poder derreter uma série de blogs que têm dentro gente incrível e fundi-los num só. Que magnifico seria a profusão de conhecimento do Caríssimo Xilre à mistura com o humor refinado de Don Pipoco Mais Salgado, com o chá da Miss Smile, com a sensibilidade da desafiante Ana, da Susana e da Laura, com a poesia da Maria Eu, com o sentido corsário da Capitã Cuca, com a profundidade nua da Flor, com o altruísmo e a musicalidade do CN Gil, com a praia da Isabel, com a voz meiga da Noname, com o romantismo intermitente do Miguel Bondurant, com o sonho inacabado da Olvido, com as múltiplas faces e tentáculos do Manel Mau-Tempo, com os atalhos da Teresa, com a esquina da Luisa... com muitos, muitos outros. No fim chamar-lhe-ia "Mistifório".

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Pusilânimes?

Há gente cuja fisionomia muda por completo ao vê-las experimentar um sentimento vivaz, próximo do afecto. Talvez a indiferença se tenha tornado no seu território há tanto tempo e seja então um instante de emoção transparente que faz com que o seu olhar liquido não consiga encontrar as palavras que rasguem o silêncio e puxem o fio à conversa circunstancial. Ou então estão apenas a vibrar por questões rudes e pesadas de revoluções intimas em vez de se empanturrarem de incertezas. Ou então é apenas um talento natural que têm de confrontar os outros com a verdadeira medida da vida, esse talento miraculoso que as liberta das pusilanimidades que escomoteiam uma parte de si próprias. 
Não sei. Mas aprecio.

E tu, porque ainda insistes nisto dos blogs?

A cada périplo ainda enfrento dois sentimentos absolutamente complementares: a felicidade e a tristeza retardada. Numa primeira investida, impulsiva, sente-se desde logo uma vontade abrupta de extorquir o máximo de prazer da leitura de cada recanto, como se estivesse para se dar, a todo o momento, a sua delirante destruição. Lê-se tão depressa que parece que se fundem uns nos outros e não nos detemos para destrinçar o emaranhado de histórias que se vai formando a partir dos diferentes blogs. Acaba-se sempre por entrar neles, nuns coroando todas as cenas de amor e noutros abafando todas as tragédias. Às vezes acontece ao contrário.
Há gente que sabe desenhar e aplicar tinta e que consegue fazer dela o que quer. Tem olhos para captar e pintar as coisas simples e belas da vida: a luz matinal, a superfície de um espelho, o som de uma música erudita, a casca de uma maçã, a pele arrepiada, os olhos cintilantes, os ombros brancos e esculturais, peitos proeminentes, espíritos em ebulição permanente.
Outros há que, às vezes, a nuvem vai-se dispersando, deixando um ambiente consideravelmente desanuviado, mas dai a nada ali está ela, outra vez, espessa e cerrada à sua volta a relembrar-lhes que os laços que os ligam ao mundo são extremamente frágeis. E enquanto lá fora não pára de chover, a única coisa que os impede de tentar desaparecer uma segunda vez é o medo de falhar novamente. Até que um dia, assim sem motivo nenhum, lá acordam a sentir-se bem.
Como são admiráveis as pessoas dos blogs! Mas isto, como se sabe, é só isso mesmo - blogs. O mundo há-de ser aquilo que se vê daquela janela para fora.

terça-feira, 30 de maio de 2017

Registo de propriedade

Que odeia mais a mulher? - O ferro dizia ao iman o seguinte: odeio-te porque tu atrais, mas não és suficientemente forte para me ligar a ti.

__Friedrich Nietzsche In Civilização e Decadência

                                                                                                                                   Gerhard Riebicke

Ninguém atrai ninguém, ninguém se atrai a si mesmo, homens e mulheres atraem-se entre si, moldados pela sobrevivência.

__Impontual, debaixo de um terrível sol de trovada de Maio.

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Estava aqui hesitante entre a Serenata nº 13 em Sol maior para cordas e a Serenata Melancólica em Si menor para violino e orquestra...

O problema é continuar haver pessoas que acham que temos obrigação de ter consciência de tudo o que se passa em nosso redor. Esquecem-se, entretanto, que isso seria o mesmo que ouvir o dia nascer, a relva a crescer, a noite a cair, a lua a passar ou mesmo um coração distante a palpitar. E não. Não podemos estar acordados tanto tempo. Eu pelo menos não posso.

Acabei por optar por Schubert ao piano de Lang Lang, que dize(i)s?

Um domingo, uma chuva, uma cigarrilha...

As lágrimas são uma coisa misteriosa. A minha avó dizia-me antigamente que temos uns canais lacrimais para lavar os olhos que são máquinas frágeis e delicadas, mas ninguém sabe porque é que esses mesmos canais se põem a funcionar sozinhos quando estamos tristes. E não adianta perguntarmo-nos qual é a relação entre a tristeza e a água salgada. Embora valha a pena viajarmos pelos meandros da memória, vermos a maneira como a podemos enriquecer ou apagar, dar lugar à amnésia necessária para seguir caminho, não em direcção ao amanhã que esse nunca chega, mas ao dia seguinte.

sábado, 27 de maio de 2017

Escala cinza

Ao fundo, o mar está cinzento e liso como a curva das nuvens da mesma cor. Sento-me a observar as ondas que deixam escorregar, lentamente, as suas línguas estreitas ao longo do areal. Uma luz, ténue, de fim de manhã escapa sobre as densas nuvens negras, dardejando sobre a superfície da água, fazendo com que as ondas cintilem por uns instantes até que lambem as pedras e se tornam cada vez mais escuras, fervilhando pela areia pálida e saibrosa, desaparecendo.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Triagem de Manchester

Frases rutilantes. Ligações perigosas. Rupturas. Flexões. Locuções entusiastas. Sufixos indignados. Silabas em êxtase. Desinências em suspenso. Letras, sem cessar, que por muito que se saiba tomá-las fazem soçobrar. Ecoam e oscilam no além do espírito. Lá onde as palavras são umas bêbedas. É mesmo isso que somos. Perversos. Todos. Desde o nascimento, por assim dizer. Charlies.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Atalhos de vida

Casamento
uma série interminável de divórcios

Teresa Borges do Canto, no Atalhos de Campo

______________

Ou, silogisticamente, a união dialéctica pode comprovar que o contrário também é uma verdade sustentável?

terça-feira, 23 de maio de 2017

Mestrados e doutoramentos

O problema é que as pessoas, abnegadas que são, julgam que o amor se aprende da mesma forma que aprenderam o teorema de Pitágoras, a teoria da relatividade, as leis da termodinâmica e da conservação das massas, os movimentos da bolsa de valores e outras teorias sobre o estado do mundo. E por isso vivem intrigadas por esse rio grande - que é o amor - que parece inundar o universo, mas que não as irriga a elas. 

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Défice excessivo

Pousar o olhar sobre o outro, vê-lo tal como ele é e dar. Dar amor. Dar, recebê-lo. 
Dar, receber, dar, receber. Um vaivém muito mais perigoso que o acto carnal. Débito-crédito, crédito-débito, débito-crédito. Os números alinhavam-se ameaçadores. A divida amorosa é sempre exorbitante. 

sábado, 20 de maio de 2017

Poeta azul


O silêncio e os nossos corpos nus, um encostado ao outro, eis o nosso domínio, o nosso trono, o nosso reino de turquesa encantado.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Turba

O jornalismo mal-intencionado é hoje uma espécie de turba descontrolada, engrossando e espalhando-se, adquirindo força à medida que se vai disseminando. Apesar de ser impossível controlar por completo qualquer turba, todas precisam de ter o seu cabecilha. Quando o jornalismo mal-intencionado começa a espalhar-se com tal ousadia que chega ao ponto de manchar integridades sem olhar a quem nem a meios, os que são responsáveis pela sua propagação só podem ser pessoas que ocupam cargos de chefia. Que outra espécie de gente agiria desta maneira?
E fico a pensar como é que há directores a fazer, a propagar e a gerir jornalismo desta natureza. Se chegarão ao fim do dia satisfeitos, realizados com o seu trabalho? Se o mostrarão às esposas, aos filhos, às filhas universitárias com orgulho? 

terça-feira, 16 de maio de 2017

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Carmen

A sua dor não pára de aumentar ainda mais por se sentir tão sozinha num arquipélago lento onde tudo incita a partilhar o inefável, a respirar em conjunto. Como pode gritar o seu desgosto no meio de uma tal beleza, de uma tal abundância de flores? As Hortênsias, as Camélias, os Patalugos onde tudo é alegria, as cores saturadas das lagoas, todas aquelas Azáleas lavadas pelo sol falam de identidades, de âmagos recuperados, de horizontes disponíveis, enquanto ela sofre daquela solidão que asfixia os incompreendidos.  Perdida no paraíso da relutância, o matraquear surdo do absoluto chama-a a um encontro não estagnado do amor tecido com verdades perigosas, cheio de risos inacessíveis, a um infinito que desaparecera, a um sentimento desencorajado, ao escândalo da mediocridade.

Guronsan

"O dia é uma dádiva. Se nos der chuva, aproveitemo-la"

__ Salvador Sobral

sexta-feira, 12 de maio de 2017

E tu, qual é a tua versão favorita do Avé Maria ?

Enquanto fumo um Cohiba Behike na varanda entra-me uma música de fundo, alta, vinda algures da janela entreaberta da vizinha, uma fanática de Elïna Garanca, que hoje resolvera brindar-me com “Avé Maria" de Mascagni. Levanto-me e tomo um café, feito esta manhã, frio. Observo-a agora, tal como o café, mais a frio, mais distante.
Semicerrou os olhos, reclinou a cabeça ligeiramente para trás e deixou que no interior do seu corpo forças cegas se interceptassem, se rejeitassem e estrebuchassem até se incendiarem. Deliciosos horrores, grosserias de alcova jorraram então da sua boca como pequenas escórias da alma, cinzas incandescentes expulsas no momento da erupção. A noite, amante obediente, delicia-se agora com aquele ventre acetinado de mulher semi-adormecida.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Perfidus

A lascívia pode ser uma espécie de veneno que corroí a vida. Contudo, a partir do momento em que se compreende que essa mesma vida, pela sua natureza, não dura para sempre e não pode esperar, o veneno passa de uma tentação perigosa à promessa do renascer. Porque não, pois, erguer o copo e brindar? Eis o pensamento pérfido.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Outras vidas

Se eu fosse o Papa Francisco, e viesse à Cova da Iria, faria a minha humilde entrada nessa aldeia, desconhecido, e quase sem ser visto. Todavia, quando os peregrinos que se dizem na sua confissão religiosa, me começassem a conhecer, ficariam mais agradados com a minha presença do que o contrário, mesmo quando lhes dissesse que não era portador da reserva de carácter necessária para sossegar as suas consciências de puro sangue que, por esta altura, vivem agitados, bem como para proporcionar um apoio suplementar à raça mista que entrará na missa de manhã e circundará de joelhos a capela das aparições pela tarde. Mas não sou. E ainda bem.

Baptista-Bastos


In Colina de cristal

terça-feira, 9 de maio de 2017

Leituras

Quando me acompanhou à porta de saída, tive oportunidade de observar a sua figura. Possuía, obviamente, todos os encantos da juventude: leveza, esplendor e energia, mas faltava-lhe a sabedoria, a pátina, o saboroso trato dos quarentas. Acenei com a cabeça. É possível que não tenha conseguido ler-me, nem nos olhos nem no sorriso. Eu li-a de baixo a cima.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Bem dizia Cioran

A França, país que outrora nos mostrou o simbolismo, o impressionismo, o liberalismo, o estilo, os salões, os prazeres da inteligência, a razão, as pequenas perfeições e que sempre serviu como centro irradiador de tendências para o resto da Europa, hoje deu mais uma profícua instrução ao Mundo: - aprendam a ser infelizes, gentilmente.

domingo, 7 de maio de 2017

Bolachas de manteiga

Quando na porta à minha frente soava aquela leve pancada de dois toques e me deparava com uma mulher bem composta, de cabelo escuro, testa ampla e sensata, olhos que me aqueciam e um sorriso que no meio da noite era em si mesmo uma luz sobre a minha alma fruidora, que me perguntava numa voz musical, com uma expressão de doçura nas feições e abanando a porta atrás de si com uma das mãos:
- Sabes guardar um segredo?
- Como um túmulo! dizia eu com fervor.
- Acabei de fazer umas bolachas de manteiga!
...

- Não durmas tarde.

- Obrigado, mãe.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Onde está a verdadeira vida?

É esta a pergunta de um homem que teima em rejeitar as emoções aguareladas. O amor, longe de ser uma recriação, tem sido sempre o único pretexto válido da sua vivência, um dos raros ópios capazes de atenuar um insistente e alegre pessimismo. Apenas a irrevogável tendência para o sexo oposto o consola verdadeiramente. Prisioneiro dessa alegria oficial, durante longo tempo a geografia das suas necessidades, como se esse desejo essencial, juntamente com os seus ressentimentos, fossem os grandes mestres do amadurecimento.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Civilização do espectáculo

Quem sou eu, bem pesadas todas as coisas, para me armar em juiz impassível de uma civilização tão rica como a nossa? Acabaria certamente por ficar afogado em lugares-comuns. Na verdade, bem vistas as coisas, todas as civilizações assentam na ideia de que, de um lado, não há mais que uma horda vagamente humana e, do outro, os iluminados -"nós". O modo como se policia a fronteira entre civilizados e bárbaros pode diferir, mas todos a policiam, desde o Alasca à Tasmânia. No entanto há algo que distingue uma civilização de todas as outras que é, sem dúvida, a colossal e arrogante desumanidade com que policia essa fronteira.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Baleia azul

Fui almoçar à Galiza. Um daqueles bifes que vem naquela caçarola minúscula a transbordar de molho, e que se comem com o talheres em posição vertical. O bife era tão mal passado que ainda falei com a vaca. Claro que esparrinhou. Não havia de esparrinhar! Salpicou-me a gravata toda. Hoje pus gravata. No Porto também se come mal. Ou melhor, opta-se mal. Mas dizia eu, na Galiza as pessoas sentam-se na mesa dos outros como se não estivesse ali ninguém. Tocou-me uma mãe e um filho. A mãe não era velha. O filho já não era novo. Sorri-lhes. Comeram em silêncio. O filho espreitava o telefone inteligente a cada vibração. Desta última vez, a luz acendeu-se de um azul muito forte, era uma mensagem, não pude deixar de reparar: "eu amo-te e quero ser tua eternamente. Ass: Paulinha". O rapaz sorriu. A mãe deu um último travo no copo da água e disse: "as mulheres são serpentes - o que tens de fazer é despreza-las. E depois quando se sentirem desprezadas, amá-las apaixonadamente. Assim devem ser tratadas as mulheres. Não existe outra maneira, meu filho". Comeram rápido. Eu fiquei ali a falar com a vaca.
Agora, enquanto a gravata seca, sou capaz de ir tomar um gin, tónico, com muito limão.

terça-feira, 2 de maio de 2017

Fumus boni iuris

Juridicamente, a partir de hoje os animais deixam de ser considerados coisas. Agora, é deixar de tratar as pessoas como animais.

sábado, 29 de abril de 2017

Dia Mundial da Dança

E quando a violência dos nossos corpos atravessar o canal da linguagem, passar para além das palavras, para além de tudo o que possam dizer as palavras, ocupar-me-ei do teu corpo, centímetro a centímetro, explorá-lo-ei, acariciá-lo-ei, farei jorrar prazer de cada poro da tua pele. Será a grande ocupação da minha vida: dar-te prazer... tratar-te como uma pequena rainha. Apenas ouvirás o roçar do meu corpo contra o teu, as gotículas de suor que rolam na tua pele, a minha boca que as vai sorver, que subirá à tua orelha e repetirá incansavelmente: "diz-me o que queres". Depois, enxaguarei o teu corpo dessa água que corre, dessa sede que jorra entre a tua e a minha pele, essa sede nunca saciada que encontra mil fontes novas em mil recantos escondidos no teu corpo espantado. Por fim deixaremos a beira-mar, os rochedos, a espuma suja das vagas, afogar-nos-emos naquela água salgada, lamber-nos-emos, respirar-nos-emos, ergueremos a cabeça para recuperar o folgo e partiremos para mais longe dançando no desconhecido caminho marítimo dos nossos corpos ...

quinta-feira, 27 de abril de 2017

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Hemisférios


É difícil não esquartejar o tempo quando se reflecte sobre o passado, não o dividir em blocos de acordo com o padrão dos factos que mais nos marcaram, não lhe adjudicar poderes que em si mesmo não tem, não pensar nele como se a chegada de uma nova data tivesse capacidade para nos mudar radicalmente. E não desprovido de menos falta de sentido é o reflexo de um erro maior: o de se acreditar que mudamos de repente e não pouco a pouco, como se simultaneamente não pudessem influir em nós impulsos opostos. 
Somos tão tolos! Mas somos tolos só porque queremos?

Tríptico




In memoriam.

terça-feira, 25 de abril de 2017

Povoléu

Era uma vez um país, numa época em que a maior parte das pessoas acreditava num qualquer género de universo em três camadas: havia o mundo sobrenatural, o natural e um qualquer lugar povoado por seres humanos. Uma espécie de vácuo nevoento e doloroso onde o Povoléu era a classe dominante. O seu nome do meio era Pobreza e o seu apelido Ignorância.Consequentemente, a sua única hipótese de felicidade estava na escravidão. Escravizem-nos, se for preciso, gritava silenciosamente o Povoléu, mas dêem-nos de comer. E assim, durante quarenta e cinco anos, foi sobrevivendo, matando a fome e passeando-se em ruas mal iluminadas onde ninguém o pudesse escutar - ouvia-se contar o que acontecia aos que erguiam a voz por uma outra liberdade -, mas o Povoléu nunca ficou muito perturbado com esse género de purga. Até que um dia deu-se a revolução de Abril e o Povoléu passou a viver livre mas acossado pela pressão social do sucesso, do poder, da riqueza, da família, da felicidade urgente, da expectativa... e de um mal-estar que lhe percorre o corpo provocando taquicardia, sudorese, respiração acelerada, boca seca, peso no peito, suor nas mãos, sensação de que o coração lhe vai sair pela boca...refém das suas próprias liberdades e sem saber como fazer a contra-revolução. 

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Allons enfants de la Patrie, Le jour de gloire est arrivé !

São cada vez menos os olhos que vêem o que está escondido. Olhos infelizes, haveis visto de menos! As linhas começam a ter um traçado pouco definido, os extremos tornam-se flexíveis; as cores do mundo esbatem-se e como que flutuam, ficam esbranquiçadas à luz e perdem a sua vitalidade. A sua camada fina distende-se, porque o Homem é frágil e débil, à semelhança da cidade que erigiu em seu redor. Calado avança decisões na noite das perguntas sem resposta. Tese dolorosa e empolgante esta a do Homem a quem o factor medo é necessário para justificar a sua culpa. Estas parecem ser as características do retrato da sociedade futuraDou graças por não estar presente para ver isso.

sábado, 22 de abril de 2017

Google Earth

Eu que também sou frequentador da terra, hoje ponho-me a olha-la de olhos cerrados e o que me é dado a observar de forma evidente, salvo raras clareiras, é o carreiro de formigas: anteontem era o holandês, ontem o busto, hoje as vacinas, amanhã não faltará o futebol e a politica para espraiar convicções.
Eu próprio tenho opinião sobre o holandês, sobre o busto e sobre as vacinas, sobre futebol, sobre politiquices e por isso ao fazer zoom com o monóculo sobre aquelas raras clareiras, questiono-me absurdamente se ainda será possível fazer deste quintal um jardim com outras plantas em lugar desta estufa de fruta em serie. 

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Manhã submersa

...primeiro deu-se um momento de repouso dentro dela, a glória e o espanto, o mais próximo que se podia estar, e viver, da presença da liberdade - o pássaro engaiolado no seu momento de puro descanso, antes de ser lançado na luz encadeante. Depois o corpo, quedo nesse falso embalar de luxúria, clama na brutalidade do instinto: daqui não saio, daqui não saio.

É maravilhoso estarmos deitados e banharmo-nos no corpo de outra pessoa. "Tens um corpo muito bonito", - ouvir as próprias palavras pairarem na luz da manhã, saltando flamejantes nas esferas cromadas da cabeceira da cama, fazendo ricochete nas paredes e nos tectos.

Ó gentes

Anotem bem a elevação moral, estética, argumentativa, assertiva e, especialmente, muito filantropa, desta iniciativa a todos os títulos notável. Já anotaram? Fizeram bem. Agora divulguem-na.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Acabou a reflexão, acabou o jejum, voltai ao pecado.

Cantarolai, vesti os linhos, longas saias dançantes, blusas justas, cabelos soltos ao vento, corpo ofertado ao luar. Distribuí beijos, caricias ao acaso. Sabei que o amor é um fluido que circula de um ser para outro fazendo desvios, é generoso e perde-se no caminho, pousa sobre corações solitários e deixa neles a sua marca, antes de florescer naqueles que elegeu. Ó pecadores, voltai ao pecado.

terça-feira, 11 de abril de 2017

Ao sul

Há olhares cândidos e provocantes ao mesmo tempo, há graça, ousadia e humor, há vestidos azuis, há a tarde plena, há ar atlântico, mediterrânico e andaluz, há perfis anglo-saxónicos, há a chama ágil do sorriso, a surpresa do diálogo, a impaciência de mãos e lábios. As distâncias e as interdições foram abolidas, os frutos do conhecimento são acessíveis em ecrãs de bolso, a árvore da vida sem tempo oferece a sua seiva em todos os recantos. Não há nada que falte no paraíso, ao sul. Só não tem aquela aurora refulgente. Não posso ficar.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Debussy - Clair De Lune

Uma última mensagem nocturna e críptica, como uma ameaça em fundo azul: "Quero ver-te". No instante seguinte, a imagem ocupava todo o ecrã da noite: um banco junto ao passeio marítimo, uma silhueta, um vestido preto do outro mundo, o peito generosamente desnudado, as ancas amplas, a pele branca, o cabelo arruivascado sobre os ombros arredondados, sapatos de salto alto, pretos, ao pescoço um lenço de seda, ao lado a mala aberta, óculos, tabaco, isqueiro... e por cima um outro lenço, também fino e leve, amarelo torrado. Os cabelos revoltos pelo vento, o olhar atento, absorto, perscrutando o horizonte, o rosto marcado por uma branda e evasiva solidão, mas intenso como no passado, à espera de um sussurro, de um movimento de lábios ou de mãos ou de corpo ou... de ondas no mar ao fundo.

terça-feira, 4 de abril de 2017

Vou mas é passear o cão de pêlo pardo

Já não tenho tempo, nem olhos, nem ouvidos para a cacofonia politica - nacional e internacional -, essa solene e glacial farsa. Discursos, ameaças, policias, reclusos, ex-reclusos, ministérios públicos, juízes e advogados, coros festivos, e coros plangentes, bombistas e os jogos de artificio, actores, imitadores de outros actores de tribunas maiores, as encenações ambiciosas e os truques, os troféus e o terror do circo quotidiano. Já não tenho nem tempo, nem olhos, nem ouvidos para semelhante comédia tragédia.
Bora Fiódor... bora.

06:03

"Malandro", murmurava a escuridão. Após um breve intervalo, novamente "malandro". Passados uns minutos, o murmúrio regressa e distingo, finalmente, "malandro", "malandro", repetido pelo fio da voz insidiosa da noite. Dou voltas no lodo do sono, levanto o braço esquerdo, mole, pesado, puxo o edredão até à cabeça, escorrego, afundo-me de novo no subterrâneo do sono. Pestanejo, porém! A maldição insinua-se, já sem escapatória. "Malandro", oiço outra vez nas proximidades. O edredão não me pode proteger, e já nem eu me posso proteger a mim próprio. Serei extraído, devagar, muito devagar, do lodo negro e doce da ausência, sei-o bem. Já não é a primeira vez que sou invadido no sono por um murmúrio em modo soletrado em que se separam as letras conhecidas, anunciando o despertar. O cansaço já não ajuda, nada me pode restituir a profundidade. Subtraído ao lodo terapêutico, puxado lentamente, com suavidade, para a superfície, tento ainda assim a rotina do retardamento, prolongando a apatia, a amnésia, o desmaio de olhos fechados, a mente pesada, vazia, o corpo pesado, de movimentos difíceis, tentando ficar assim, um lastro de chumbo na noite vasta e boa e pesada. Depois a janela diluiu a opacidade, torna-a violácea, transparente, os cortinados baloiçam num lânguido e pérfido suspiro, fácil de reconhecer na voz profana e muda da madrugada: "malandro". 
Malandro, eu?

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Retórica

A verdade é que chega-se a uma altura em que nem as desilusões, nem as confusões, nem o aborrecimento sem nome, podem subjugar totalmente o calendário. A rua, as casas, as árvores floridas, os rostos escondidos na incógnita dos dias, as mulheres, os livros e os amigos, tudo isto potencia o campo magnético do ser em que nos tornamos. Não fosse o pavor da cova dos falhados, o pavor encolhido, dilatado e novamente encolhido, adormecido mas não muito e dispensava-se a estratégia da esquiva, a retractilidade perante os dias que se estende ao resto, o trabalho aturado da dupla solução, a múltipla alternativa para as situações imprevisíveis, a solução de reserva, o coeficiente de segurança... e seriamos muito melhores pessoas. Agora assim, somos o que somos.

sábado, 1 de abril de 2017

Fugidio


Parou de chover, acolhe-me a tarde serena. Uma quietude hospitaleira, sem pensamentos, nem perguntas, apenas a tarde magnifica. O presente, ou seja, aqui e agora. Um mar e uma montanha que me vigiam triunfalmente, e eu, por mim, ávido do livro que aguarda os meus olhos e as minhas silenciosas questiúnculas, não me quero implicado na infelicidade do mundo. Nem sequer do mundo que está aqui mesmo ao meu lado.

terça-feira, 28 de março de 2017

Adeus

Despede-se sempre com um "adeus". Gosta da forma seca, limpa, rectilínea, mas no fundo também abstracta que a palavra confere a todo um futuro imediato que se gera logo ali. Depois do "adeus", tudo pode ser diferente, tudo pode ser igual. É um presente sempre novo. O "adeus" não deixa promessas nem obrigações, nem expectativas, nem formas pensadas ou realidades por cumprir. É um lugar seguro, airoso, aconchegado, nada monótono.

segunda-feira, 27 de março de 2017

Tríptico.











A poesia tem-me segredado que as almas são incomunicáveis. Por vezes a música conta-me o contrário. Em que ficamos..? Preciso de saber.

Equívocos

Uma manhã de Primavera, na pequena estação ferroviária, a serenidade do momento persistia nos dois passageiros já depois de estes terem entrado no comboio. Sentaram-se em silêncio, um à frente do outro, nos dois lugares do lado da janela do compartimento. As primeiras palavras, e sobretudo o seu tom, revelavam permissão. Dir-se-ia que aceitavam a melancolia cinzenta e impessoal do equinócio. No entretanto, lá fora, ao contrário disso, os acontecimentos haviam-se tornado vendavais num palco dilatado, horrível, mais largo que o próprio mundo.

sábado, 25 de março de 2017

Lei de Aldrin

As horas, sôfregas, cansadas da terra, das árvores e de mim deixam-se cair no horizonte, transformando o céu numa longa faixa de nuvens vivas que sangram lentamente. Depois é a noite que resvala agarrada à transparência do ar frio. Uma brisa ainda mais forte levanta-se fazendo rumorejar as copas mais altas dos cedros e quando chega ao chão já elas partiram. As horas. Caminham ao encontro da noite, olhos abertos à escuridão povoada de insectos e bichos rastejantes. Até agora, elas estão a deixar-me não de imediato, o que seria bastante penoso, mas através de uma amarga sucessão de separações. Numa determinada altura estão presentes e depois vão novamente embora, a cada viagem afastam-se um pouco mais do meu alcance. Não posso segui-las, e interrogo-me sobre onde é que elas irão quando partem. As horas.

quinta-feira, 23 de março de 2017

Ah, então é isso.

O amor quer dizer cegueira. E cegueira, na dose certa, pode querer dizer alguma felicidade.

quarta-feira, 22 de março de 2017

Miss Smile

Começa por reanimar a voz com gradações e arpejos - mas para ela é como recitar o alfabeto, é mais como uma alegria, como correr descalça por uma extensa praia de areia. Após várias notas curtas, acentuadas, em staccato, surge um acorde e a sua voz desliza entre as notas, apodera-se de uma delas e ergue-se até ao céu: dispara. Num ritmo sacudido, desce desde as notas agudas, cantadas com uma doçura lancinante, até às águas profundas e sombrias das notas baixas, onde geme como se a vida a estivesse a deixar gota a gota. Por vezes, faz um ruído com os lábios como uma rolha que salta, outras vezes bate no peito com a palma da mão para pontuar a música que flui da sua garganta. Dir-se-ia que a sua voz conta uma história - não apenas a história da sua vida, mas a de toda a humanidade com os seus combates e provações, seus triunfos e derrotas. Ora se escoa em vagas ameaçadoras como o oceano engrossado por uma tempestade, ora como uma queda de água que desce pela falésia e faz ricochete precipitando-se no caos de espuma em direcção ao vale sombrio e luxuriante que está em baixo. Desenha círculos de ouro como anéis de Saturno, oscilando loucamente de alto a baixo, lamentando-se e vibrando, insinuando-se à volta de um grave como a hera que trepa as árvores, para depois finalmente mergulhar nas águas azuis e transparentes de um acorde de sol maior.

Escreve como se estivesse a cantar.