segunda-feira, 29 de maio de 2017

Um domingo, uma chuva, uma cigarrilha...

As lágrimas são uma coisa misteriosa. A minha avó dizia-me antigamente que temos uns canais lacrimais para lavar os olhos que são máquinas frágeis e delicadas, mas ninguém sabe porque é que esses mesmos canais se põem a funcionar sozinhos quando estamos tristes. E não adianta perguntarmo-nos qual é a relação entre a tristeza e a água salgada. Embora valha a pena viajarmos pelos meandros da memória, vermos a maneira como a podemos enriquecer ou apagar, dar lugar à amnésia necessária para seguir caminho, não em direcção ao amanhã que esse nunca chega, mas ao dia seguinte.

sábado, 27 de maio de 2017

Escala cinza

Ao fundo, o mar está cinzento e liso como a curva das nuvens da mesma cor. Sento-me a observar as ondas que deixam escorregar, lentamente, as suas línguas estreitas ao longo do areal. Uma luz, ténue, de fim de manhã escapa sobre as densas nuvens negras, dardejando sobre a superfície da água, fazendo com que as ondas cintilem por uns instantes até que lambem as pedras e se tornam cada vez mais escuras, fervilhando pela areia pálida e saibrosa, desaparecendo.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Triagem de Manchester

Frases rutilantes. Ligações perigosas. Rupturas. Flexões. Locuções entusiastas. Sufixos indignados. Silabas em êxtase. Desinências em suspenso. Letras, sem cessar, que por muito que se saiba tomá-las fazem soçobrar. Ecoam e oscilam no além do espírito. Lá onde as palavras são umas bêbedas. É mesmo isso que somos. Perversos. Todos. Desde o nascimento, por assim dizer. Charlies.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Atalhos de vida

Casamento
uma série interminável de divórcios

Teresa Borges do Canto, no Atalhos de Campo

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Ou, silogisticamente, a união dialéctica pode comprovar que o contrário também é uma verdade sustentável?

terça-feira, 23 de maio de 2017

Mestrados e doutoramentos

O problema é que as pessoas, abnegadas que são, julgam que o amor se aprende da mesma forma que aprenderam o teorema de Pitágoras, a teoria da relatividade, as leis da termodinâmica e da conservação das massas, os movimentos da bolsa de valores e outras teorias sobre o estado do mundo. E por isso vivem intrigadas por esse rio grande - que é o amor - que parece inundar o universo, mas que não as irriga a elas. 

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Défice excessivo

Pousar o olhar sobre o outro, vê-lo tal como ele é e dar. Dar amor. Dar, recebê-lo. 
Dar, receber, dar, receber. Um vaivém muito mais perigoso que o acto carnal. Débito-crédito, crédito-débito, débito-crédito. Os números alinhavam-se ameaçadores. A divida amorosa é sempre exorbitante. 

sábado, 20 de maio de 2017

Poeta azul


O silêncio e os nossos corpos nus, um encostado ao outro, eis o nosso domínio, o nosso trono, o nosso reino de turquesa encantado.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Turba

O jornalismo mal-intencionado é hoje uma espécie de turba descontrolada, engrossando e espalhando-se, adquirindo força à medida que se vai disseminando. Apesar de ser impossível controlar por completo qualquer turba, todas precisam de ter o seu cabecilha. Quando o jornalismo mal-intencionado começa a espalhar-se com tal ousadia que chega ao ponto de manchar integridades sem olhar a quem nem a meios, os que são responsáveis pela sua propagação só podem ser pessoas que ocupam cargos de chefia. Que outra espécie de gente agiria desta maneira?
E fico a pensar como é que há directores a fazer, a propagar e a gerir jornalismo desta natureza. Se chegarão ao fim do dia satisfeitos, realizados com o seu trabalho? Se o mostrarão às esposas, aos filhos, às filhas universitárias com orgulho? 

terça-feira, 16 de maio de 2017

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Carmen

A sua dor não pára de aumentar ainda mais por se sentir tão sozinha num arquipélago lento onde tudo incita a partilhar o inefável, a respirar em conjunto. Como pode gritar o seu desgosto no meio de uma tal beleza, de uma tal abundância de flores? As Hortênsias, as Camélias, os Patalugos onde tudo é alegria, as cores saturadas das lagoas, todas aquelas Azáleas lavadas pelo sol falam de identidades, de âmagos recuperados, de horizontes disponíveis, enquanto ela sofre daquela solidão que asfixia os incompreendidos.  Perdida no paraíso da relutância, o matraquear surdo do absoluto chama-a a um encontro não estagnado do amor tecido com verdades perigosas, cheio de risos inacessíveis, a um infinito que desaparecera, a um sentimento desencorajado, ao escândalo da mediocridade.

Guronsan

"O dia é uma dádiva. Se nos der chuva, aproveitemo-la"

__ Salvador Sobral

sexta-feira, 12 de maio de 2017

E tu, qual é a tua versão favorita do Avé Maria ?

Enquanto fumo um Cohiba Behike na varanda entra-me uma música de fundo, alta, vinda algures da janela entreaberta da vizinha, uma fanática de Elïna Garanca, que hoje resolvera brindar-me com “Avé Maria" de Mascagni. Levanto-me e tomo um café, feito esta manhã, frio. Observo-a agora, tal como o café, mais a frio, mais distante.
Semicerrou os olhos, reclinou a cabeça ligeiramente para trás e deixou que no interior do seu corpo forças cegas se interceptassem, se rejeitassem e estrebuchassem até se incendiarem. Deliciosos horrores, grosserias de alcova jorraram então da sua boca como pequenas escórias da alma, cinzas incandescentes expulsas no momento da erupção. A noite, amante obediente, delicia-se agora com aquele ventre acetinado de mulher semi-adormecida.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Perfidus

A lascívia pode ser uma espécie de veneno que corroí a vida. Contudo, a partir do momento em que se compreende que essa mesma vida, pela sua natureza, não dura para sempre e não pode esperar, o veneno passa de uma tentação perigosa à promessa do renascer. Porque não, pois, erguer o copo e brindar? Eis o pensamento pérfido.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Outras vidas

Se eu fosse o Papa Francisco, e viesse à Cova da Iria, faria a minha humilde entrada nessa aldeia, desconhecido, e quase sem ser visto. Todavia, quando os peregrinos que se dizem na sua confissão religiosa, me começassem a conhecer, ficariam mais agradados com a minha presença do que o contrário, mesmo quando lhes dissesse que não era portador da reserva de carácter necessária para sossegar as suas consciências de puro sangue que, por esta altura, vivem agitados, bem como para proporcionar um apoio suplementar à raça mista que entrará na missa de manhã e circundará de joelhos a capela das aparições pela tarde. Mas não sou. E ainda bem.

Baptista-Bastos


In Colina de cristal

terça-feira, 9 de maio de 2017

Leituras

Quando me acompanhou à porta de saída, tive oportunidade de observar a sua figura. Possuía, obviamente, todos os encantos da juventude: leveza, esplendor e energia, mas faltava-lhe a sabedoria, a pátina, o saboroso trato dos quarentas. Acenei com a cabeça. É possível que não tenha conseguido ler-me, nem nos olhos nem no sorriso. Eu li-a de baixo a cima.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Bem dizia Cioran

A França, país que outrora nos mostrou o simbolismo, o impressionismo, o liberalismo, o estilo, os salões, os prazeres da inteligência, a razão, as pequenas perfeições e que sempre serviu como centro irradiador de tendências para o resto da Europa, hoje deu mais uma profícua instrução ao Mundo: - aprendam a ser infelizes, gentilmente.

domingo, 7 de maio de 2017

Bolachas de manteiga

Quando na porta à minha frente soava aquela leve pancada de dois toques e me deparava com uma mulher bem composta, de cabelo escuro, testa ampla e sensata, olhos que me aqueciam e um sorriso que no meio da noite era em si mesmo uma luz sobre a minha alma fruidora, que me perguntava numa voz musical, com uma expressão de doçura nas feições e abanando a porta atrás de si com uma das mãos:
- Sabes guardar um segredo?
- Como um túmulo! dizia eu com fervor.
- Acabei de fazer umas bolachas de manteiga!
...

- Não durmas tarde.

- Obrigado, mãe.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Onde está a verdadeira vida?

É esta a pergunta de um homem que teima em rejeitar as emoções aguareladas. O amor, longe de ser uma recriação, tem sido sempre o único pretexto válido da sua vivência, um dos raros ópios capazes de atenuar um insistente e alegre pessimismo. Apenas a irrevogável tendência para o sexo oposto o consola verdadeiramente. Prisioneiro dessa alegria oficial, durante longo tempo a geografia das suas necessidades, como se esse desejo essencial, juntamente com os seus ressentimentos, fossem os grandes mestres do amadurecimento.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Civilização do espectáculo

Quem sou eu, bem pesadas todas as coisas, para me armar em juiz impassível de uma civilização tão rica como a nossa? Acabaria certamente por ficar afogado em lugares-comuns. Na verdade, bem vistas as coisas, todas as civilizações assentam na ideia de que, de um lado, não há mais que uma horda vagamente humana e, do outro, os iluminados -"nós". O modo como se policia a fronteira entre civilizados e bárbaros pode diferir, mas todos a policiam, desde o Alasca à Tasmânia. No entanto há algo que distingue uma civilização de todas as outras que é, sem dúvida, a colossal e arrogante desumanidade com que policia essa fronteira.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Baleia azul

Fui almoçar à Galiza. Um daqueles bifes que vem naquela caçarola minúscula a transbordar de molho, e que se comem com o talheres em posição vertical. O bife era tão mal passado que ainda falei com a vaca. Claro que esparrinhou. Não havia de esparrinhar! Salpicou-me a gravata toda. Hoje pus gravata. No Porto também se come mal. Ou melhor, opta-se mal. Mas dizia eu, na Galiza as pessoas sentam-se na mesa dos outros como se não estivesse ali ninguém. Tocou-me uma mãe e um filho. A mãe não era velha. O filho já não era novo. Sorri-lhes. Comeram em silêncio. O filho espreitava o telefone inteligente a cada vibração. Desta última vez, a luz acendeu-se de um azul muito forte, era uma mensagem, não pude deixar de reparar: "eu amo-te e quero ser tua eternamente. Ass: Paulinha". O rapaz sorriu. A mãe deu um último travo no copo da água e disse: "as mulheres são serpentes - o que tens de fazer é despreza-las. E depois quando se sentirem desprezadas, amá-las apaixonadamente. Assim devem ser tratadas as mulheres. Não existe outra maneira, meu filho". Comeram rápido. Eu fiquei ali a falar com a vaca.
Agora, enquanto a gravata seca, sou capaz de ir tomar um gin, tónico, com muito limão.

terça-feira, 2 de maio de 2017

Fumus boni iuris

Juridicamente, a partir de hoje os animais deixam de ser considerados coisas. Agora, é deixar de tratar as pessoas como animais.

sábado, 29 de abril de 2017

Dia Mundial da Dança

E quando a violência dos nossos corpos atravessar o canal da linguagem, passar para além das palavras, para além de tudo o que possam dizer as palavras, ocupar-me-ei do teu corpo, centímetro a centímetro, explorá-lo-ei, acariciá-lo-ei, farei jorrar prazer de cada poro da tua pele. Será a grande ocupação da minha vida: dar-te prazer... tratar-te como uma pequena rainha. Apenas ouvirás o roçar do meu corpo contra o teu, as gotículas de suor que rolam na tua pele, a minha boca que as vai sorver, que subirá à tua orelha e repetirá incansavelmente: "diz-me o que queres". Depois, enxaguarei o teu corpo dessa água que corre, dessa sede que jorra entre a tua e a minha pele, essa sede nunca saciada que encontra mil fontes novas em mil recantos escondidos no teu corpo espantado. Por fim deixaremos a beira-mar, os rochedos, a espuma suja das vagas, afogar-nos-emos naquela água salgada, lamber-nos-emos, respirar-nos-emos, ergueremos a cabeça para recuperar o folgo e partiremos para mais longe dançando no desconhecido caminho marítimo dos nossos corpos ...

quinta-feira, 27 de abril de 2017

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Hemisférios


É difícil não esquartejar o tempo quando se reflecte sobre o passado, não o dividir em blocos de acordo com o padrão dos factos que mais nos marcaram, não lhe adjudicar poderes que em si mesmo não tem, não pensar nele como se a chegada de uma nova data tivesse capacidade para nos mudar radicalmente. E não desprovido de menos falta de sentido é o reflexo de um erro maior: o de se acreditar que mudamos de repente e não pouco a pouco, como se simultaneamente não pudessem influir em nós impulsos opostos. 
Somos tão tolos! Mas somos tolos só porque queremos?

Tríptico




In memoriam.

terça-feira, 25 de abril de 2017

Povoléu

Era uma vez um país, numa época em que a maior parte das pessoas acreditava num qualquer género de universo em três camadas: havia o mundo sobrenatural, o natural e um qualquer lugar povoado por seres humanos. Uma espécie de vácuo nevoento e doloroso onde o Povoléu era a classe dominante. O seu nome do meio era Pobreza e o seu apelido Ignorância.Consequentemente, a sua única hipótese de felicidade estava na escravidão. Escravizem-nos, se for preciso, gritava silenciosamente o Povoléu, mas dêem-nos de comer. E assim, durante quarenta e cinco anos, foi sobrevivendo, matando a fome e passeando-se em ruas mal iluminadas onde ninguém o pudesse escutar - ouvia-se contar o que acontecia aos que erguiam a voz por uma outra liberdade -, mas o Povoléu nunca ficou muito perturbado com esse género de purga. Até que um dia deu-se a revolução de Abril e o Povoléu passou a viver livre mas acossado pela pressão social do sucesso, do poder, da riqueza, da família, da felicidade urgente, da expectativa... e de um mal-estar que lhe percorre o corpo provocando taquicardia, sudorese, respiração acelerada, boca seca, peso no peito, suor nas mãos, sensação de que o coração lhe vai sair pela boca...refém das suas próprias liberdades e sem saber como fazer a contra-revolução. 

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Allons enfants de la Patrie, Le jour de gloire est arrivé !

São cada vez menos os olhos que vêem o que está escondido. Olhos infelizes, haveis visto de menos! As linhas começam a ter um traçado pouco definido, os extremos tornam-se flexíveis; as cores do mundo esbatem-se e como que flutuam, ficam esbranquiçadas à luz e perdem a sua vitalidade. A sua camada fina distende-se, porque o Homem é frágil e débil, à semelhança da cidade que erigiu em seu redor. Calado avança decisões na noite das perguntas sem resposta. Tese dolorosa e empolgante esta a do Homem a quem o factor medo é necessário para justificar a sua culpa. Estas parecem ser as características do retrato da sociedade futuraDou graças por não estar presente para ver isso.

sábado, 22 de abril de 2017

Google Earth

Eu que também sou frequentador da terra, hoje ponho-me a olha-la de olhos cerrados e o que me é dado a observar de forma evidente, salvo raras clareiras, é o carreiro de formigas: anteontem era o holandês, ontem o busto, hoje as vacinas, amanhã não faltará o futebol e a politica para espraiar convicções.
Eu próprio tenho opinião sobre o holandês, sobre o busto e sobre as vacinas, sobre futebol, sobre politiquices e por isso ao fazer zoom com o monóculo sobre aquelas raras clareiras, questiono-me absurdamente se ainda será possível fazer deste quintal um jardim com outras plantas em lugar desta estufa de fruta em serie. 

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Manhã submersa

...primeiro deu-se um momento de repouso dentro dela, a glória e o espanto, o mais próximo que se podia estar, e viver, da presença da liberdade - o pássaro engaiolado no seu momento de puro descanso, antes de ser lançado na luz encadeante. Depois o corpo, quedo nesse falso embalar de luxúria, clama na brutalidade do instinto: daqui não saio, daqui não saio.

É maravilhoso estarmos deitados e banharmo-nos no corpo de outra pessoa. "Tens um corpo muito bonito", - ouvir as próprias palavras pairarem na luz da manhã, saltando flamejantes nas esferas cromadas da cabeceira da cama, fazendo ricochete nas paredes e nos tectos.

Ó gentes

Anotem bem a elevação moral, estética, argumentativa, assertiva e, especialmente, muito filantropa, desta iniciativa a todos os títulos notável. Já anotaram? Fizeram bem. Agora divulguem-na.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Acabou a reflexão, acabou o jejum, voltai ao pecado.

Cantarolai, vesti os linhos, longas saias dançantes, blusas justas, cabelos soltos ao vento, corpo ofertado ao luar. Distribuí beijos, caricias ao acaso. Sabei que o amor é um fluido que circula de um ser para outro fazendo desvios, é generoso e perde-se no caminho, pousa sobre corações solitários e deixa neles a sua marca, antes de florescer naqueles que elegeu. Ó pecadores, voltai ao pecado.

terça-feira, 11 de abril de 2017

Ao sul

Há olhares cândidos e provocantes ao mesmo tempo, há graça, ousadia e humor, há vestidos azuis, há a tarde plena, há ar atlântico, mediterrânico e andaluz, há perfis anglo-saxónicos, há a chama ágil do sorriso, a surpresa do diálogo, a impaciência de mãos e lábios. As distâncias e as interdições foram abolidas, os frutos do conhecimento são acessíveis em ecrãs de bolso, a árvore da vida sem tempo oferece a sua seiva em todos os recantos. Não há nada que falte no paraíso, ao sul. Só não tem aquela aurora refulgente. Não posso ficar.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Debussy - Clair De Lune

Uma última mensagem nocturna e críptica, como uma ameaça em fundo azul: "Quero ver-te". No instante seguinte, a imagem ocupava todo o ecrã da noite: um banco junto ao passeio marítimo, uma silhueta, um vestido preto do outro mundo, o peito generosamente desnudado, as ancas amplas, a pele branca, o cabelo arruivascado sobre os ombros arredondados, sapatos de salto alto, pretos, ao pescoço um lenço de seda, ao lado a mala aberta, óculos, tabaco, isqueiro... e por cima um outro lenço, também fino e leve, amarelo torrado. Os cabelos revoltos pelo vento, o olhar atento, absorto, perscrutando o horizonte, o rosto marcado por uma branda e evasiva solidão, mas intenso como no passado, à espera de um sussurro, de um movimento de lábios ou de mãos ou de corpo ou... de ondas no mar ao fundo.

terça-feira, 4 de abril de 2017

Vou mas é passear o cão de pêlo pardo

Já não tenho tempo, nem olhos, nem ouvidos para a cacofonia politica - nacional e internacional -, essa solene e glacial farsa. Discursos, ameaças, policias, reclusos, ex-reclusos, ministérios públicos, juízes e advogados, coros festivos, e coros plangentes, bombistas e os jogos de artificio, actores, imitadores de outros actores de tribunas maiores, as encenações ambiciosas e os truques, os troféus e o terror do circo quotidiano. Já não tenho nem tempo, nem olhos, nem ouvidos para semelhante comédia tragédia.
Bora Fiódor... bora.

06:03

"Malandro", murmurava a escuridão. Após um breve intervalo, novamente "malandro". Passados uns minutos, o murmúrio regressa e distingo, finalmente, "malandro", "malandro", repetido pelo fio da voz insidiosa da noite. Dou voltas no lodo do sono, levanto o braço esquerdo, mole, pesado, puxo o edredão até à cabeça, escorrego, afundo-me de novo no subterrâneo do sono. Pestanejo, porém! A maldição insinua-se, já sem escapatória. "Malandro", oiço outra vez nas proximidades. O edredão não me pode proteger, e já nem eu me posso proteger a mim próprio. Serei extraído, devagar, muito devagar, do lodo negro e doce da ausência, sei-o bem. Já não é a primeira vez que sou invadido no sono por um murmúrio em modo soletrado em que se separam as letras conhecidas, anunciando o despertar. O cansaço já não ajuda, nada me pode restituir a profundidade. Subtraído ao lodo terapêutico, puxado lentamente, com suavidade, para a superfície, tento ainda assim a rotina do retardamento, prolongando a apatia, a amnésia, o desmaio de olhos fechados, a mente pesada, vazia, o corpo pesado, de movimentos difíceis, tentando ficar assim, um lastro de chumbo na noite vasta e boa e pesada. Depois a janela diluiu a opacidade, torna-a violácea, transparente, os cortinados baloiçam num lânguido e pérfido suspiro, fácil de reconhecer na voz profana e muda da madrugada: "malandro". 
Malandro, eu?

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Retórica

A verdade é que chega-se a uma altura em que nem as desilusões, nem as confusões, nem o aborrecimento sem nome, podem subjugar totalmente o calendário. A rua, as casas, as árvores floridas, os rostos escondidos na incógnita dos dias, as mulheres, os livros e os amigos, tudo isto potencia o campo magnético do ser em que nos tornamos. Não fosse o pavor da cova dos falhados, o pavor encolhido, dilatado e novamente encolhido, adormecido mas não muito e dispensava-se a estratégia da esquiva, a retractilidade perante os dias que se estende ao resto, o trabalho aturado da dupla solução, a múltipla alternativa para as situações imprevisíveis, a solução de reserva, o coeficiente de segurança... e seriamos muito melhores pessoas. Agora assim, somos o que somos.

sábado, 1 de abril de 2017

Fugidio


Parou de chover, acolhe-me a tarde serena. Uma quietude hospitaleira, sem pensamentos, nem perguntas, apenas a tarde magnifica. O presente, ou seja, aqui e agora. Um mar e uma montanha que me vigiam triunfalmente, e eu, por mim, ávido do livro que aguarda os meus olhos e as minhas silenciosas questiúnculas, não me quero implicado na infelicidade do mundo. Nem sequer do mundo que está aqui mesmo ao meu lado.

terça-feira, 28 de março de 2017

Adeus

Despede-se sempre com um "adeus". Gosta da forma seca, limpa, rectilínea, mas no fundo também abstracta que a palavra confere a todo um futuro imediato que se gera logo ali. Depois do "adeus", tudo pode ser diferente, tudo pode ser igual. É um presente sempre novo. O "adeus" não deixa promessas nem obrigações, nem expectativas, nem formas pensadas ou realidades por cumprir. É um lugar seguro, airoso, aconchegado, nada monótono.

segunda-feira, 27 de março de 2017

Tríptico.











A poesia tem-me segredado que as almas são incomunicáveis. Por vezes a música conta-me o contrário. Em que ficamos..? Preciso de saber.

Equívocos

Uma manhã de Primavera, na pequena estação ferroviária, a serenidade do momento persistia nos dois passageiros já depois de estes terem entrado no comboio. Sentaram-se em silêncio, um à frente do outro, nos dois lugares do lado da janela do compartimento. As primeiras palavras, e sobretudo o seu tom, revelavam permissão. Dir-se-ia que aceitavam a melancolia cinzenta e impessoal do equinócio. No entretanto, lá fora, ao contrário disso, os acontecimentos haviam-se tornado vendavais num palco dilatado, horrível, mais largo que o próprio mundo.

sábado, 25 de março de 2017

Lei de Aldrin

As horas, sôfregas, cansadas da terra, das árvores e de mim deixam-se cair no horizonte, transformando o céu numa longa faixa de nuvens vivas que sangram lentamente. Depois é a noite que resvala agarrada à transparência do ar frio. Uma brisa ainda mais forte levanta-se fazendo rumorejar as copas mais altas dos cedros e quando chega ao chão já elas partiram. As horas. Caminham ao encontro da noite, olhos abertos à escuridão povoada de insectos e bichos rastejantes. Até agora, elas estão a deixar-me não de imediato, o que seria bastante penoso, mas através de uma amarga sucessão de separações. Numa determinada altura estão presentes e depois vão novamente embora, a cada viagem afastam-se um pouco mais do meu alcance. Não posso segui-las, e interrogo-me sobre onde é que elas irão quando partem. As horas.

quinta-feira, 23 de março de 2017

Ah, então é isso.

O amor quer dizer cegueira. E cegueira, na dose certa, pode querer dizer alguma felicidade.

quarta-feira, 22 de março de 2017

Miss Smile

Começa por reanimar a voz com gradações e arpejos - mas para ela é como recitar o alfabeto, é mais como uma alegria, como correr descalça por uma extensa praia de areia. Após várias notas curtas, acentuadas, em staccato, surge um acorde e a sua voz desliza entre as notas, apodera-se de uma delas e ergue-se até ao céu: dispara. Num ritmo sacudido, desce desde as notas agudas, cantadas com uma doçura lancinante, até às águas profundas e sombrias das notas baixas, onde geme como se a vida a estivesse a deixar gota a gota. Por vezes, faz um ruído com os lábios como uma rolha que salta, outras vezes bate no peito com a palma da mão para pontuar a música que flui da sua garganta. Dir-se-ia que a sua voz conta uma história - não apenas a história da sua vida, mas a de toda a humanidade com os seus combates e provações, seus triunfos e derrotas. Ora se escoa em vagas ameaçadoras como o oceano engrossado por uma tempestade, ora como uma queda de água que desce pela falésia e faz ricochete precipitando-se no caos de espuma em direcção ao vale sombrio e luxuriante que está em baixo. Desenha círculos de ouro como anéis de Saturno, oscilando loucamente de alto a baixo, lamentando-se e vibrando, insinuando-se à volta de um grave como a hera que trepa as árvores, para depois finalmente mergulhar nas águas azuis e transparentes de um acorde de sol maior.

Escreve como se estivesse a cantar.

Ó repórteres de actualidades

Vós que sois dotados de olhos inquietos, testemunhas sem fronteiras que palpais com ousadia as entranhas do mundo, que metralhais cada uma das suas tremulações, que apreendeis tudo o que mexe, tudo o que muda, tudo que se revolve,  tudo o que se agita, tudo o que salta, tudo o que corre, tudo o que se exibe, tudo  o que se pavoneia, tudo que escorrega, tudo que cai, tudo que nasce, tudo que chora, tudo o que se entedia e morre, já não tinhas dado grande conta disto e agora deixais passar isto. Então?

terça-feira, 21 de março de 2017

Se eu fosse cego amava toda a gente


Tu, meu amor, que nome é o teu? Dize onde vives, dize onde moras, dize se vives ou se já nasceste.
Eu amo aquela mão branca dependurada da amurada da galé que partia em busca de outras galés perdidas em mares longissimos.
Eu amo um sorriso que julgo ter visto em luz do fim-do-dia por entre as gentes apressadas.
Eu amo aquelas mulheres formosas que indiferentes passaram a meu lado e nunca mais os meus olhos pararam nelas.
Eu amo os cemitérios - as lágens são espessas vidraças transparentes, e eu vejo deitadas em leitos floridos virgens nuas, mulheres belas rindo-se para mim.
Eu amo a noite, porque na luz fugida as silhuetas indecisas das mulheres são como as silhuetas indecisas das mulheres que vivem em meus sonhos. Eu amo a lua do lado que eu nunca vi.

Se eu fosse cego amava toda a gente.

__Almada Negreiros

segunda-feira, 20 de março de 2017

Caturra

Perguntou: leste "O monte dos vendavais"? Respondi: sim, li. E leste como deve ser? Reformulou. Respondi que achava que sim. Ela disse: então sabes que o ser humano não é apenas luz, é também escuridão, loucura, tristeza. 
Acreditas na felicidade? Acredito, respondi-lhe. Acredito na felicidade ilusória, ocultei-lhe.

sábado, 18 de março de 2017

Atrasados

Ao sábado de manhã gosto de ir até ao Café, sentar-me na esplanada, pedir um café e ler os atrasados. Gosto de café. Gosto de atrasados. Noutros tempos talvez me irritasse esta mania insistente das ciências da comunicação, que consiste em filtrar a insignificante espuma dos dias para dela extrair apenas a matéria empobrecida. Só que dentro de mim há já algum tempo que as marés vivas foram dando lugar a um mar de putas. E que magnifico mar de azul lavrado avisto eu hoje! Vocês, não sei. Mas, se ainda vos abespinhais, ide  "AQUI" e "AQUI"  e depois contai-me de que cor é o vosso mar, vizinhos.

quarta-feira, 15 de março de 2017

E também abomino mediadores

Nunca dizem acidente, dizem sempre colisão. Acidente significa que não há culpados. E isso não pode ser.

terça-feira, 14 de março de 2017

Cú de Judas



Esta última semana passei-a a fotografar árvores e pensava por lá ficar mais um par de dias, mas por motivos de compromisso cá da minha vida tive de voltar à grande cidade.
O choque é frontal. Onde havia ciprestes há pessoas, onde havia espaço há carros enfileirados a perder de vista, onde havia terraços voltados para o horizonte há esplanadas sombrias com mesas carregadas de gente, onde havia pássaros em chilreo há músicos de rua. Onde havia um mar levemente ondulado há gente que grita, gente ferida, gente que fere, gente que disputa lugares, gente que não sorri, gente sem rosto, gente curvada sobre si mesma, gente que ultrapassa pela direita, gente que pára sem travar, gente que muda de direcção sem dar sinal, gente que vai, gente que vem, gente que fica... gente, gente, gente.

Acreditem, eu não tenho absolutamente nada contra cada uma destas pessoas individualmente, mas quando se juntam em forma de multidão... às vezes abomino-as. Não sei se podia dizer isto? 
Mas vá lá, ganhei um bilhete para o Rodrigo Leão & Scott Matthew no Primavera Sound, vá lá.

segunda-feira, 13 de março de 2017

Constança

Violentas rajadas de vento vindo do norte abanavam as árvores do jardim assobiando entre os ramos e os troncos. De pé, em frente à janela, via a vegetação agitar-se na escuridão. Tinha uma ideia exacta daquilo que desejava naquele momento: uma parcela do tempo presente, suportar o peso desmedido do pensamento e apegar-se à trama lassa da existência, um breve instante subtraído ao formol dos hábitos, qualquer coisa de instintivo, quiçá uma lufada de sexo à toa e que depois tudo continuasse como antes. Não sendo contudo falho de interesse um regresso às origens da espécie para descobrir aquilo de que realmente é feita, reiterando o desejo de ver nascer a aurora, prometa ela o que prometer.

quinta-feira, 9 de março de 2017

Frederico.

A noite passada teve um pesadelo e acordou a gritar sobressaltado, mas agora não consegue recordar-se do pesadelo por meio de palavras, ele quebra-se em pequenos fragmentos que vão perdendo a cor rapidamente e depois evaporam-se por completo. Sente-se culpado porque não se recorda da razão de ter acordado a gritar. Tenta achar alguma coisa para justificar o incómodo, mas quanto mais procura uma história para contar, mais o seu espírito se esvazia e tudo o que consegue dizer é: "desculpa ter-te abraçado daquela maneira..."

quarta-feira, 8 de março de 2017

Cavalleria Rusticana


Se eu tivesse sido compositor, era esta música de Pietro Mascagni que eu haveria de compor. E então, dedicá-la-ia a todas as mulheres, e estas haveriam de sorrir graciosamente, todos os dias, sem o impulso de efemérides, sem nada, por tudo, só porque sim. E a elas juntar-me-ia num sorriso maior. 
Mas não fui. Tenho pena. Muita pena. Fico fora de combate.

terça-feira, 7 de março de 2017

Ia agora ali a passar e... chegou a Prima.



Fez de conta que não me viu, não me sorriu, não me falou - a sostra. Pois eu há muito que furtivamente lhe contemplava os lábios, e o resto, e estou seguro de ter fantasiado e imaginado o impensável com aqueles lábios e com o resto, antes de ter a sombra da sua realidade diante de mim. Ter imaginado aqueles lábios, e ainda o resto, noutros lábios e noutros corpos tem sido também uma penitência. Acto de contrição: um dia ainda viverei somente a sonhar com ela. Um dia.

Garfield

Eu, que não sou de intrigas, nunca imaginei dizer isto, mas é que anda aí um blog de um gajo que é gaja que me diverte à grande. E está cada vez melhor. Até a mim me deixa assovelado.

segunda-feira, 6 de março de 2017

Salvador Sobral



Nunca fui muito de festivais da canção. Confesso que não vi nada de nada. Não conheço as outras canções que lá foram a concurso. E confesso ainda que só ouvi a canção na viagem matinal que fiz pela rede. Parei, escutei e senti um leve tremor... palavras melodiosas dardejando tranquilamente sobre a superfície das águas profundas do meu oceano pacifico. Estou varado. Não me reconheço. Confesso.
Parabéns Salvador, parabéns Luísa.

sábado, 4 de março de 2017

De Torga a Calvino, num ápice

Que interessa? Se a vida é isto o que eu estou a ver: uma manhã majestosa e nua sobre este areal coberto de um sol manso e tépido, um manto ondulado de água azul resplandecente, de onde esvoaça uma gaivota solitária, e mais dois seres — eu e o cão de pêlo pardo — silenciosos, escancarados, pasmados, a olhar e a ouvir o arrulhar das ondas. A vida hoje é isto. Amanhã será outra coisa qualquer, igualmente inexaurível.

quinta-feira, 2 de março de 2017

Andorinhas de beiral


Antes de mais nada, o que há a fazer é passear em nós. É passear, olhar e cheirar. Depois, sim, discutiremos e alinharemos o resto das nossas primaveras. Depois.

Ruy de Carvalho

 

"As pessoas deviam  reivindicar mais cultura. A cultura é tão importante como a economia, ou mais. Uma pessoa culta não acarneira. Nao é acarneirado. E isso é um dos princípios da democracia: não ser carneiro. "

  • Na Grande Entrevista da RTP3

quarta-feira, 1 de março de 2017

Quarta-Feira de Cinzas

Acendeu outro cigarro do maço de tabaco americano, chupou profundamente, expeliu o fumo, olhou fixamente e disse: - quando vamos foder?
Deu outra passa no cigarro e ficou a olhar com os seus intensos olhos a brilhar, um levíssimo sorriso eufórico nos lábios carnudos, o mesmo sorriso da jogadora que aposta tudo e mostra três ases quando apenas se esperava um par de cincos, um ligeiro tremor instala-se-lhe no queixo como se estivesse a degustar um naco de carne suculento e delicioso. Estava feliz por falar e ter quem a ouvisse em silêncio.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Vórtice


Cá dentro, amparo e calor. Uma luz suave. Silêncio. Sob a chaminé, uma pequena lareira. Esperança. Ponto zero. A imensidão do tempo. O dia que se prolonga como se não fosse ter fim.
Lá fora, um frio imaculado. Cortante. Uma brancura azul, um sol forte e uma paisagem de montanha. Picos perigosos e selvagens a recordar uma terra sem homem. Uma imagem turva, uma respiração, um batimento cardíaco, um grito. E depois, repentinamente, a partida. Aceleração vertiginosa, dias, semanas, meses, confusão, imprecisões, impontualidades, vivências, pensamentos, experiências, mais e mais depressa, corrida, redemoinho.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Nas margens do Lago Tanganica

Entretanto entre nós há anões e gigantes, imberbes e com bigode, pobres e ricos, taciturnos e barulhentos, nobres e vulgares, abnegados e preguiçosos, comuns e providas de peitos rijos como pêras, gorduchas de pele fria, diferentes e idênticos. Aprendemos que para combater a apatia e a preguiça é necessário viver com o prurido da ordem, da exactidão, da coerência, da harmonia e de um grande sentido de comunidade. Aprendemos que a riqueza não existe a não ser por comparação com a pobreza, que a beleza casa bem com a fealdade e que, na sua ambição pelas alturas, o abnegado necessita da admiração do preguiçoso. Aprendemos a complementar-nos. Aprendemos que o aborrecimento do rotineiro não tem nada a ver com o aborrecimento do que não tem absolutamente nada para fazer. E que, sim, isto afinal pode perfeitamente ser só blogs. E que o Lago Tanganica continua a ser o que se vê daquela janela.

Celebração


Hoje ainda importa comemorar, com virtuosismo, a memória e a fidelidade, a resistência e a música como alternativas à mentira e à escuridão, percebendo-se que a liberdade nunca será o paraíso perdido em que, por vezes, neste tempo novo, ainda nos querem fazer acreditar.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Sete centimetros


Não sabia se era do seu cabelo arruivascado, das sardas ligeiras pelo rosto, do sorriso lento, demorado, que lhe repuxava os lábios carnudos ou se da saia justa - sete centimetros por cima do joelho -, com aquela racha atrás que deixava à vista o perfil das duas pernas até uma altura considerável, ou simplesmente a maneira de olhar quando virava a cabeça.
O que parecia uma mera troca de confidências, transformou-se num ponto de ebulição carnal que o cercava gradualmente. Devia quere-la mais do que costumava querer qualquer mulher, porque naquela tarde, já ao cair da noite, até tremia. Estava tão pouco habituado à ternura não instituída que não sabia como aproximar-se dela, não sabia como tinha de lhe fazer cair a roupa. Em seu redor, retido, um silêncio ambíguo, estranho, solidário.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Estado do tempo


Puxou-a para si, abraçou-a fortemente, acariciou-lhe o cabelo e, peito com peito, capturaram o pulsar dos seus sangues deixando-se levar no percurso ondulante da sua circulação. O sol, prudente, manteve-se de guarda, pendente acima da linha do horizonte, como um sopro de ar suspenso. Naquele ambiente níveo interminável era fácil acreditar na maleabilidade dos dias. Eles espalhavam-se diante deles, e o amanhã tornava-se tão vago que devia estar mesmo muito longe. Até que o tempo retraiu-se e fez ricochete, o relógio repicou, pairou uma luz acinzentada e soprou uma aragem fresca. 

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Eu não gosto de falar sobre coisas das quais pouco ou nada sei

Por isso às vezes deixo-me a remoer, mas a minha questão é: não foi este mesmo mundo que alegou que ampliar e difundir massivamente a fotografia de uma criança refugiada morta na praia era a estaca zero da condição humana e que abaixo daquilo já não havia mais nada, que agora aplaude de pé a fotografia vencedora do World Press Photo deste ano, onde o corpo de um embaixador russo jaz aos pés do terrorista que acabara de o assassinar barbaramente à queima roupa enquanto este discursava em directo para as televisões? Até o erro de casting parece ser o mesmo: um dever para despertar a consciência social.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

A costureira triste

Um fim de tarde de um tédio absolutamente inconcebível, longe de tudo, incluindo de si mesma, a costureira triste lança as agulhas finas e afiadas num vai e vem enrolado, repetido e certeiro sobre o chifon dourado que há-de ser uma saia de godê simples, uma e outra vez.
Por estes dias, tudo em seu redor se encontra tão imóvel e silencioso que a enrola e adormece. O som da bernina é uma estranha canção de embalar, uma cadência tão melodiosa e tão profunda que parece saída das profundezas do mar. Apenas ouve o coração no exercício da sua única tarefa: bombear o sangue. Parece que a vontade ainda não venceu o frio. E que pode fazer se nada a chama? Se as coisas, alegadamente agradáveis, se atenuam como uma vela que vai ficando sem oxigénio. Uma chama que se inclina diante de uma sombra tridimensional composta por pouco de nada. Essa pequena chama restante, é a vaga sensação que ainda a vai fazendo crer na inevitabilidade do regresso, do reencontro. Mas, por quanto tempo? 

Ao sol nascente

Zanele Muholi

Incansável velho louco, Sol atrevido,
Porque vens tu assim
Visitar-nos, através das janelas por entre cortinas?
Devem as estações dos amantes obedecer a teus movimentos?
Miserável descarado e pedante, vai repreender
estudantes atrasados e aprendizes azedos
Vai dizer aos monteiros que o rei sai a cavalo,
Chama as formigas rústicas para as colheitas.
Ao amor tudo é igual, não conhece estação, nem clima
Nem horas, dias ou meses, que são os farrapos do tempo.

__John Done, Ao sol Nascente - Assírio & Alvim

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Valentinos

Nunca percebi muito bem, se as pessoas que transformam o 14 de Fevereiro numa data especial oferecendo bombons, peluches, perfumes e cuecas aos seus companheiros, o fazem por convicção ou se são românticos de pacotilha com graves problemas de consciência?

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Estólidos

"De que te queixas, alma abandonada? Por que razão esse voo agitado em torno da casa da vida? Porque não olhas os longes que te pertencem em vez de lutar contra o que é alheio? Mais vale o pombo vivo no telhado que o pardal semi-morto que, na mão, se debate, crispado de terror.

__Franz Kafka, Antologia de páginas intimas.

Graciela Iturbide

Nem as aves nem os animais são fieis, nem correm o risco de ouvir reprimendas ou sofrerem sanções quando dormem com outros. O sol, a lua e as estrelas projectam a sua luz onde desejam, os navios não são aparelhos para permanecerem nos portos, nem as casas construídas para permanecerem trancadas. As metáforas sucedem-se em cadeia, tocando as suas buzinas como veículos todo-o-terreno num engarrafamento do centro da cidade. Um homem a queixar-se das limitações da fidelidade é uma figura tão inepta!
Quem diz um homem diz uma mulher.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Asilo


Vim para o Principado, porque já me chega a República roubar-me a liberdade durante o resto da semana.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Anastassiya Petrov

Jamais falta à visita privada que ele solicita mensalmente. Como sempre, permite que ele, por trás, se derrame dentro de si com urgência cerrada. A ela o orgasmo só lhe vem mais tarde, quando à saída o pesado bater de cada uma das portas gradeadas ressoa em homenagem à sua dupla liberdade.

Entretanto surgiu a emenda.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Costa e Silva

É um demónio pequeno, de categoria inferior, com uma grande barriga e um rosto redondo e petulante. A maior parte do dia, esconde-se pelos cantos do seu gabinete, por vezes sentado em cima da sua trouxa, outras vezes coçando as orelhas grandes e afiladas ou metendo os dedos pequenos e grossos no nariz, mas está sempre a observar, sempre alerta. Mais de que qualquer outra coisa, aprecia aqueles erros em que nem os operacionais nem os revisores reparam e que sobrevivem no novo plano sem serem corrigidos, mas lapsos tão significativos são bem-vindos porque dificultam a obra dos homens de Deus. Ao fim da tarde, quando a luz se atenua, recolhe cuidadosamente todos os erros na sua mala e arrasta-os até ao Inferno, para aí os apresentar ao Diabo, de modo a que cada pecado possa ser registado num livro - ao lado do nome do errante responsável - para ser lido em voz alta no dia do julgamento final.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Cortinas

De copo na mão, escondido atrás da cortina com a barba por fazer, supõe-se sempre o pior. Entra-se num inferno do qual não se poderá sair sem arranhões. O wiskey que sabe a chuva. O filme continua a rodar: os amantes bebem o molho proibido, amam-se sobre a carpete, sob o chuveiro, no carro, três quarteirões antes de chegar a casa. Fecha-se a cortina. Finge-se adormecido. À dor da consciência soma-se a mágoa incontrolável de não ter imaginação. Tempo ao tempo, é o que lhe sobra. Em cima da cama uma maçã: "atentamente, a cobra".

Dulce Maria Cardoso


“A minha solidão? Alguém viveu o mesmo que eu”.

O Retorno -  Edição Tinta da China 2011, seleccionado para o European Literature Night 2017.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Arestas

Quem és tu? - perguntou ele.
Quem sou eu? - Ela riu, passou as mãos pelos cabelos. Tinha um rosto arguto.
- Há quem diga que sou uma mulher perversa. Há quem me descreva como uma analista financeira de uma empresa. O meu pai, em tempos, diria que sou a menina dos seus olhos. Não te piques nas arestas da minha personalidade. Não há lugar, nem tempo, para mal-entendidos.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Boletim meteorológico

O vento e a chuva disputando-se para dominar o outro. E quem não for duro será estraçalhado sem sequer ter tempo de perceber onde está. Por baixo de uma fina camada de decoro, que se desfaz a cada sopro ou bátega, uma terrível escuridão. 
É de homens e de mulheres.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Alerta vermelho

À sua frente conseguiam ver o mar e os penhascos escarpados que se projectavam sobre a água de ambos os lados. Era uma vista que nem um nem outro tinham vislumbrado antes, naquelas circunstâncias. Em qualquer outra ocasião, seria provável que parassem maravilhados para contemplar a basta extensão de água verde-acinzentada e manchada de branco nas zonas onde as ondas, revoltas, se quebravam sem cessar. Mas naquele momento não havia tempo...

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Eutanásia

Pode ser um instante. O fim do sofrimento. Uma réstia de dignidade. O derradeiro êxtase num momento de esplendor luminoso, como deve sentir um homem que salta da ponta de uma falésia indo cair sobre rochas longínquas, almofadadas. Ou como um criminoso, atirado para a eternidade pelo empurrão do carrasco, voando sobre o silêncio da multidão vendo tudo, compreendendo tudo, uma luz intensa, um ar calmo, depois o vento a quebrar as ondas sobre a cabeça, a luz aumentando, o corpo a pairar, lá em cima, e a zumbir de dormência. O espírito passeando-se em grandes latitudes. A vida trespassada pelo morno de um último arrepio. Uma hesitação. Uma recusa em voltar. Um renovado calafrio a cristalizar o momento final. O descanso eterno.

Mas... não sei. Tenho dúvidas. Muitas dúvidas. Decidi vós. Decidi bem.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Morrer de amor - breve dissertação

O momento é sempre o mesmo e sempre novo, um instinto forte que anula a memória. Permanecer imóvel no instante, mesmo no coração do corpo, o lugar do princípio e do fim, agarrá-lo ali, a destempo, movermo-nos suavemente em toda a calma da carne, degustar de novo aquele instante trémulo, suste-lo, conhece-lo, saborear e deixá-lo soltar-se, o passarinho que retemos, o seu coração martelando na concha da mão, lançado livre para o ar. A morte há-de chegar da mesma forma, a tensão abandonando o corpo, em dor e não nesta doçura, mas uma última vez, o círculo que se completa, sem nunca ter de voltar atrás para agarrar o momento fugidio que é sempre igual, sempre em voo.

sábado, 28 de janeiro de 2017

Qwerty

Tem tudo para escrever a sua saudade. As letras perfeitamente alinhadas, os dedos inclinados sobre as teclas, o silêncio da sua voz, a nostalgia humedecendo-lhe a boca, a pele recordando-lhe caricias, a música invadindo-lhe o mais recôndito e profundo patamar do âmago. Mas, não. A página continua em branco como que a iludir a ausência. Não há palavras para desenha-la. Apenas umas palpitações electrizantes no corpo todo. Um ou outro soluço intermitente. Uma teimosia pacifica.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Quitéria

É durante o silêncio da noite, nesse espaço de tempo que antecede o sono e em que o mais severo dos pesadelos a toma e, vencida, a faz procurar a cálida miragem de quem dormia ao seu lado, quando a memória se torna omnipresente e fustiga a consciência como se (um antigo intruso) batesse à sua porta para recuperar o lugar de onde tinha sido expulso. É o fracasso do esquecimento: a nostalgia, o medo, os sonhos adiados, a solidão que ameaça no escuro.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Cardápio

Nisto dos blogs e na escrita de cariz erótico-intimista que por ai prolifera, o que aborrece, seguramente, não é a falta de imaginação erótica, não é a panóplia de prazeres apresentados, nem sequer a confusão entre o erótico, que é todo imaginação, e a mera sensação física. O que aborrece, verdadeiramente, é a fria lubricidade daquilo que é anunciado como excitante.
Porém, não quer isto dizer que esses simples templos votados ao prazer, sejam mais desinteressantes que outras salas dedicadas à maneira de vestir, alimentar e retocar o corpo que pululavam por ruas muito mais salubres.

sábado, 21 de janeiro de 2017

Constança

Há um odor a vida nova, insistente, a libertar-se da sua pele, o cabelo a ondular como uma anémona-do-mar, o desejo a formar-se a partir do nada, do ar. Da mente, prisioneira de todos os anseios, há uma luz a projectar-se e as sombras crescendo em seu redor, tremeluzentes, fugidias, abraçando o agora e o nunca, cristalizando todas as células na incerteza se resistirá ao choque da noite morna e escura a dar lugar à luz branca da manhã fria. No espelho, uma ausência que se pronuncia.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Ainda por outro lado

...pegava agora mesmo na Nikon F60 analógica, introduzia um rolo 400 ISO e sairia ao seu encontro para fotografar em pormenor, mas com pouca luz, aquele corpo maduro completamente despido. Os seus ombros redondos e tonificados. A sua penugem de pêssego. Embriagar-me-ia no leve odor das suas axilas. Captava cada um dos sinais que tem nas costas. Registaria os seus cabelos de um ruivo muito suave bem como aquelas nádegas que são de um branco leitoso. Tomaria nota das marcas ali deixadas pelo aperto das minhas mãos, da vermelhidão e da velocidade com que a mesma desaparece. Sentiria o peso e a maleabilidade inesperados do seu peito quando se deita de costas, do tom suavemente corado dos seus mamilos e da forma como reagem ao mais leve dos toques. O umbigo delicado. O glorioso contraste entre o branco de porcelana da sua pele e o negro, como tinta permanente, dos pêlos púbicos que não são nem espessos nem finos. Guiaria as suas pernas, afastando-as, para lhe explorar o interior. A sua maturidade. A cor. O pulsar. Colocaria a cabeça entre as suas coxas e teria a noção da sua perfeição, sentindo o calor que daí emana como se saísse de uma fornalha intrincada... fechando-me por completo ao mundo exterior. 
Mas não vai dar. Está um frio de rachar.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Por outro lado...

Gianni Berengo Gardin, "Il bacio di Venezia"

Há momentos nos quais aquilo que se cala tem tanta importância como o que se diz. É como uma viagem nocturna, ora reflexiva, ora extravagante e desolada, em busca da linha de sombra onde os anseios habitam, mas também, pelas mesmas razões, um périplo à procura do esquecimento, uma recordação minuciosa e esperançada em que as certezas perdem paulatinamente a sua razão de ser e são substituídas, como se tratasse de um sonho, pelo vazio do tempo.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Trilho

 
Gianni Berengo Gardin

Há coisas de que é preciso dizer enquanto se caminha. Sem fixar o olhar em lugar algum e pisando duro como se se quisesse esmagar o entorpecimento. E não em frente a um jarro de sangria a olhar nos olhos um do outro. Depois, está bem, assim que a noite cair será bom obedecer-lhe.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Amência

O que me interessa nas pessoas são as suas virtudes ou os seus vícios. Nelas apenas procuro a sua faceta de anjo ou de demónio. Depois de as conhecer, normalmente, os enlaces mais fortes deixam-me frio. Ataca-me uma amência que me dá mil novos olhos para saborear a paixão ardente das coxas apartadas. Amo por demais a metafisica para não me aproximar desse abismo. Contudo, quanto mais me aproximo menos livre e dono sou dos meus pensamentos.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Advérbios de tempo

O tempo passa, as recordações esbatem-se e o que não se extingue para sempre perde intensidade e com a inevitável distância parece menos do que foi. Não há respostas. Não há que lamentar. Nenhuma palavra modifica o passado e nenhuma é exacta se se pronuncia quando o que se nomeia é passado e não o presente. No presente as palavras não existem. As palavras surgem mais adiante. É ter calma.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Vácuo

O morte de Mário Soares trouxe a publico um rol de depoimentos de gente dos mais diversos quadrantes sobre a personalidade do ex- Presidente da Républica, falou especialmente gente da politica, gente do presente e do passado, gente da esquerda, gente do centro, gente da direita, gente que já não aparecia há muito, gente que está sempre a aparecer, gente que teve responsabilidade, gente que tem responsabilidade, gente que quer ter responsabilidade. É um facto, fica um vazio abismal.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Geringonça

Paula Almási

Sempre formaram um triângulo. Não o clássico triângulo amoroso, antes uma espécie de figura imperfeita e trémula, cujos limites às vezes desvaneciam sobre um fundo de secreta penumbra. Dependendo, naturalmente, da tensão que houvesse entre eles. Hoje são as imprecisões uns dos outros.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Ainda agora... enquanto me entretinha no restauro vagaroso de uma cómoda antiga

Acontecia todas as manhãs de Junho a Setembro: inclinava-se e tocava levemente com os lábios no meu cabelo. Ainda estava de roupão, mas já se havia maquilhado e não queria estragar o baton dando-me um beijo a sério. O seu cabelo estava sempre escovado, penteado e arranjado, de tom castanho escuro embora a realidade no que respeita ao seu cabelo, é que ele era totalmente cinzento e ela pintava-o de castanho para que as pessoas não soubessem que ela era velha. Uma questão interessante era saber qual a verdadeira avó: quando ela punha os óculos ou quando os tirava, quando pintava o cabelo ou quando o deixava crescer grisalho, quando estava na banheira toda nua ou quando estava vestida com aquelas roupas bonitas, quando lia o Primeiro de Janeiro em voz alta e ralhava com as noticias ou quando avançava para a saleta dos maples de orelhas, que era só dela, e por lá passava a tarde embrenhada em cartas velhas, livros velhos, fotografias velhas de pessoas ainda mais velhas. Do avô emprestava-me a reminiscência de que era um homem alto e sem garbo, forte, com olhos avultados de sapo triste, tez branca e andar pesado. Que respeitava sempre as regras, sem questionar nada e era culto e habilidoso, com uma psicologia tenaz. Que quereria dizer a palavra verdadeira, era uma questão interessante, achava eu. Outra questão de grande interesse era quando ela retirava da frigideira um ovo mexido na perfeição, colocava-o no meu prato ao lado da torrada feita na perfeição e enchia-me um copo de leite com uma mistura de cevada fervida na perfeição e dizia: "come meu menino, tens de ser um homem".

domingo, 1 de janeiro de 2017

Annus Faustus

Uma vez que me foste apresentado, talvez comece por sentar-te em frente a uma lareira com lenha a crepitar histórias e momentos deste e de outros tempos. Depois o melhor é sair contigo para a rua e apresentar-te às pessoas. Aos que riem das nuvens que carregam o céu, aos que gostam de estar sentados na beira de um rio, aos que chegam sempre atrasados, aos que almejam subir montanhas, aos que têm um só caminho: descer vales e desfiladeiros, aos que se contentam em apreciar o mar revolto em dias de inverno, aos dos olhos fundos, aos que deambulam alegres pelos corredores das horas e dos dias perdidos. E depois, mas só depois, meter-te no bolso de trás das calças, desfazer a barba de cinco dias e sorver-te, venhas como vieres. Mas... não venhas com a mesma música do teu antecessor.