sábado, 21 de abril de 2018

Shakespeare


Há algo de velado no final de tarde dos dias cinzentos que é indubitavelmente shakespeariano, não acham? Algo acerca de estar no meio das árvores, como Arden. Pergunto-me, absurdamente, se essa sensação ainda é concebível. Pergunto-me se as outras pessoas também ficarão à entrada das suas portas, estáticas e alienadas, a olhar para as árvores com aquela sensação cómica de estarem apaixonadas. De certo não.

quarta-feira, 18 de abril de 2018

"Uma pestana branca no céu negro"

Não, não é ainda a inquieta
luz de Março
à proa de um sorriso,
nem a gloriosa ascensão do trigo,

a seda de uma andorinha roçando
o ombro nu,
o pequeno e solitário rio adormecido
na garganta;

não, nem o cheiro acidulado e bom
do corpo, depois do amor,
pelas ruas a caminho do mar,
ou o despenhado silêncio

da pequena praça,
como um barco, o sorriso à proa;

não, é só um olhar.


terça-feira, 17 de abril de 2018

Entidades

Estou aqui sentado na cadeira de baloiço que se encontra na sacada virada para o mundo. Tiro umas baforadas de uma cigarrilha, Fiódor deixa-se sonolento a meus pés, no colo tenho um livro, fechado, duro, de capa dura, "branco no branco", olho desinteressado a garrafa Cabeça de Burro Tinto 2013 que se encontra sobre a mesa espaldar de teka envernizada. A noite ainda está fria. Não posso ir para dentro. Há mais de uma semana que, sempre que passo por perto da prateleira dos velhos, David Mourão-Ferreira me azucrina os ouvidos: "não foi nada, não foi nada, podia ter sido amor..."

Bambo, por aqui me quedo. Estou bem servido!

Falso alarme?

Desde a bactéria à reprodução sexuada o vivente não cessou de se diversificar, de se adaptar, reagiu ao granizo, à geada, ao diluvio, inventou códigos para comunicar, barcos e outros meios para viajar, pilhou a natureza, oprimiu os animais até os reduzir à escravidão em massa nos recintos onde os cria em série, inventou imagens que num ápice correm o mundo, os satélites, conquistou as florestas, os oceanos sem jamais conseguir ficar em paz com o seu desejo. A guerra estará no seu coração até aos confins do tempos.
Haja instrumentos. Porque antagonistas nunca faltarão, com certeza.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Homicídio qualificado



Um dia destes
vou-te matar
Uma manhã qualquer em que estejas (como de
costume)
a medir o tesão das flores
...
Um dia destes vou-te matar
Uma certeira bala de pólen
mesmo sobre o coração

__Jorge Sousa Braga - Carta de amor,1981(a Eugénio de Andrade)

sábado, 14 de abril de 2018

Palomar


O Senhor Impontual passa as vistas pelas palavras do dia retendo, varado e com algum desalinho, a seguinte afirmação: "dos quandos e dos porquês"
As pessoas atravessam continentes para ir ao encontro de paisagens e de rostos. Batem com os pés inúmeros caminhos rochosos, trepam flancos de montanhas, navegam em rios tumultuosos, mares insuperáveis, botas de montanha, bicicletas, caiaques, barcos de grande porte, voos transatlânticos. Avançam, avançam inquietos com a intensidade da novidade. O novo, que grande alimento do ego, que magnifico ingrediente em resposta ao desejo de regalo sem fim, à excitação dos sentidos. Gastam-se energias e somas incríveis para deslindar o que se terá passado ali há quatro mil milhões de anos e ainda não se sabe o que pensa a pessoa sentada ao nosso lado, cogita.

O Senhor Impontual tem a expectativa de que hoje não chova.

quinta-feira, 12 de abril de 2018

O problema dos homens

As mulheres em pêlo sempre me fizeram fantasiar; os seios, o sexo, as ancas, as nádegas, as pernas, o interior das coxas, os olhos, tudo isso sempre me põs escorpiões no cérebro, mas na vida foram sempre as mulheres atrasadas que desejei abraçar, com o seu ar de virem sempre de muito longe, apertá-las até morrer. Este mistério é uma delicia extrema: malagueta da Guiné e cardamomo do Malabar, pica e é perfumado...

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Poetas e mercadores

Os primeiros têm estados de alma, os segundos almas em estado de triunfar, sejam quais forem os mundos em vias de nascer, ambos sabem que estão aqui os seus terrenos de caça, com ou sem virtude, com ou sem felicidade. Uns observam o mundo novo como predadores, apressados em descobrir ali o que irá surgir de mercadejável. Outros olham-no e tentam entrever nele o que torna actual a arcaica e antiga história humana. Uns estão à espreita de objectos, outros perscrutam as quimeras. Enquanto uns não morrem, como ter a certeza que outros estão vivos? 

Bem sei que me dirás que te queres do lado dos vivos, sem pejo em aceitar mundos contraditórios e determinado a agir de modo a que não cresçam os que traem o princípio imperioso. Mas... afinal, és poeta ou mercador? 

quinta-feira, 5 de abril de 2018

Sabeis de onde venho?

Tenho a sensação de estar esvaziado, esgotado, roubado. Como se voltasse de uma outra dimensão, de um lugar desconhecido do mundo. Uma espécie de viagem para fora do contingente, para o exterior da terra. Como quem vive uma odisseia. Nunca senti tão intensamente esse sentimento de estranheza. Ter saído da vida comum, não para me admirar de tudo, mas para me deixar embrenhar cheio de reticências e dúvidas. E escrevo isto por saber que, seja qual for o juízo que se possa fazer, ele não surtirá qualquer efeito sobre aquilo que sou. Escrevo-o apenas para dizer ao mundo, aos terráqueos, que regresso de uma viagem de alta densidade arcaica, lá onde tudo se decide pela bitola do mais profundo. Uma história do vivente em pequenos capítulos. E o estranho é este tempo esquecido e recobrado, o de antes das palavras, de antes da inteligência, quando tudo não era senão fluxo e forças celestes. De modo que aqui têm, sou um pobre ser que acaba de transpor o grande fosso, e isso torna-me fraco. Fraco e nostálgico. Não de um paraíso perdido, mas de uma felicidade não encontrada.
Sabeis de onde venho? Dão-se alvíssaras.

quinta-feira, 22 de março de 2018

Hey, Sam

Deus deu-te esse corpo e esse espírito e tu deves ter o maior cuidado possível para tirares deles o melhor beneficio. Ele tem grandes desígnios para ti, se não não te teria feito nascer no pais mais rico do mundo, dotado do sistema de armamento mais extraordinário, capaz de destruir a espécie humana num abrir e fechar de olhos. Felizmente que Deus e o presidente Trump são bons amigos. Pensa no Paraíso como um grande estado do Texas no Céu, com Deus a passear pelo rancho de stetson e botas de cowboy, de vez em quando a subir o muro para verificar se tudo está sobre controlo, disparando ali e acolá sobre os sonhadores da Terra para se divertir.

quarta-feira, 21 de março de 2018

Dia Mundial da Poesia

Bom era que os poetas pudessem navegar no infinitamente pequeno, entre os nanos, esses minúsculos buldozers à escala atómica que penetram nas artérias e nos vasos do cérebro, para efectuar uns trabalhos miúdos de limpeza e desobstrução, onde eles - os poetas - lhes dissessem. Único receio, pois serão orgânicos: que se reproduzissem até ao infinito e destruíssem os sonhos. Também imagino que talvez haja um gene da paixão alojado nos confins do genoma e que fosse o poeta o descobri-lo.... bom dia meu caro senhor, venho propor-lhe uma pequena engenhoca genética que irá enlouquece-lo de amor...
Por quem? 
Não tem importância. Louco de amor e basta!

"Como quem, vindo de países distantes fora de
si,chega finalmente aonde sempre esteve
e encontra tudo no seu lugar,
o passado no passado, o presente no presente,
assim chega o viajante à tardia idade
em que se confundem ele e o caminho."
                

(Se puderem fazer de mim um estado de alma, façam-me Manuel António Pina. Obrigado.)

terça-feira, 20 de março de 2018

Ostras

- Meu amor - murmurou o amante, desapertando-lhe lentamente várias filas de botões.
Ela não se voltou para receber os beijos dele, mas estremeceu com a sensação na sua pele. Raramente havia estado despida, mas agora estava a ser descascada como uma ostra rara e retorcia-se como se o fosse.

segunda-feira, 19 de março de 2018

Crepusculário

Hoje não te vou abraçar, também não te vou oferecer uma gravata (azul), tão pouco vou sorrir-te e dizer: "estás cada vez mais pai". Mas se tiveres tempo e paciência, posso ir ali à prateleiras dos velhos buscar o Crepusculário. Que dizes?

"...nada podem teus olhos doces, 
como nada puderam as estrelas 
que me abrasam os olhos e as faces. 

Escutarei de noite as tuas palavras: 
... menino, meu menino... 

E na noite imensa 
com as feridas de ambos seguirei..."
                                                                                     (Pablo Neruda)
                    

quinta-feira, 15 de março de 2018

Da noite em que eu dormi com a Sylvia Plath

Perturbado, incerto, inquiridor não cesso de respirar, de tirar proveito de uma presença fulgurante, de um corpo que se move a meu lado, como se ali estivesse o quotidiano de ambos, caminhar juntos nos bastidores das horas perdidas antes de nos enfiarmos nos de uma cidade, debaixo de uma campânula de vidro... debaixo de uma bátega.

quarta-feira, 14 de março de 2018

Gisele

Acariciam-se com o olhar, promessas de rapidez, onde fica a cama, lugar acolchoado onde vão desenrolar-se as intempéries? contando que ele seja meigo, bruto, outra vez meigo, que tome e dê, retarde e acelere, se cale, que humedeça, sem excesso, sem arrebatamento fingido, docemente, concentrado no contacto extremo, no molhado, sem pensar no depois, ali e agora. Quanto ao resto, Gisele saberá inventá-lo, à sua maneira.

Doutrina

Como em tudo na vida. Nada de arrependimentos, nada de más consciências: a recordação simples de um falhanço em que ninguém bebeu do essencial para o oferecer em dádiva ao outro. Alguns amplexos e basta. Os réus acolhendo a abjurgatória.

terça-feira, 13 de março de 2018

Setenta e nove

A Bloga está a passar por uma crise de realidade. Os escribas são todos iguais, não descansam até o mundo que inventam substituir aquele em que vivem e que os desilude. É tão pueril! As palavras não são as coisas, e por mais que profiram as suas encantações, nenhum milagre se produzirá segundo os seus desejos. O mundo é rebelde e não tem lógica, não obedece a qualquer injunção das palavras, é um monstro e nós os seus lacaios. Não acham?

__ Não!?

Coreografia

Ver os seus olhos fecharem-se de sono antes dos meus, a fim de poder, como agora, murmurar-lhe palavras que vão afagar o seu rosto, a sua nuca, tal qual um demónio protector, escutar a sua respiração apaziguada e dizer-lhe que a nossa dança no mundo está ainda para começar. Basta que a chuva passe.

sábado, 10 de março de 2018

Palomar


Como é que o homem se desarticula, interroga-se o Senhor Impontual, por que motivo um dia se perde quando julga ter chegado em segurança a fim de respirar um pouco de ar puro, olhando a paisagem e dizendo para com os seus botões: o mundo é belo, eu faço parte deste universo, mas sinto-me bem aqui? Como se pudesse abeirar-se de uma janela, voar e esquecer.